Passei a infância e a adolescência num tempo em que tudo era proibido. Ninguém fazia nada sem antes perguntar se podia fazer. Hoje é diferente, tudo é permitido, se for proibido, alguém há de dizer, mas se essa proibição vai ou não ser respeitada é outra estória.
Eu mudei, as cidades em que morei mudaram, nosso país e o mundo mudaram muito mais; então é natural que o comportamento também tenha mudado.
Cresci no período da ditadura militar, mas na escola tínhamos aula de religião, educação moral e cívica, música, artes, contabilidade, desenho técnico, oficina, que eram oferecidas pela escola pública em aulas no período oposto ao da grade normal. Naquele tempo se dizia que o ensino na escola pública era melhor que o da escola privada, e quem não iria conseguir a aprovação, já no terceiro bimestre se transferia para a particular, pois, pagou, passou. No entanto, o chamado ensino de qualidade não era universal, não havia vagas para todos, e no grande número de escolas rurais a grade curricular era inferior. Porém a maior diferença que vejo entre aquele e o período atual é que em determinadas circunstâncias os professores batiam nos alunos e esses, depois, em casa, apanhavam dos próprios pais, hoje são os professores que apanham dos alunos quando também não são espancados pelos pais desses.
Na adolescência, éramos proibidos de nos reunir e por isso algumas vezes fugimos da cavalaria. Aqueles a quem chamávamos de “alienados” podiam se juntar para tomar cerveja, assistir ao futebol ou praticar a subversiva arte da pesca. Para os “engajados”, o ponto de encontro mais seguro era a igreja, onde os clérigos seguidores da ala progressista como os da Teologia da Libertação abriam espaço e garantiam, com o peso da instituição, alguma segurança. Adotamos então o lema: É Proibido Proibir, e quando nos tornamos adultos fomos os responsáveis pelo liberalismo e pela proliferação dos estatutos. Hoje tem estatuto disso, estatuto daquilo, direito desses e daqueles, e nessa semana ouvi dizer que até os ratos têm direitos, pois não se pode utilizar veneno para combatê-los. Assisti também a uma entrevista de um célere presidiário e fugitivo contumaz, na qual ele disse que fugir é um direito do preso.
É incrível como todos têm e clamam por seus direitos e são apoiados pela mídia, mas e na mão oposta? A quem cabe suprir todas as demandas? A nós mesmos, é claro, pois de uma ou de outra maneira somos nós que escolhemos nossos governantes e que por sua vez são nossos empregados, ainda que muitos deles não pensem assim. Mas se nós estabelecemos os direitos também somos os responsáveis por dizer qual é o dever de cada um, e devemos fazer isso através das leis. Ocorre que os direitos são assegurados aos indivíduos, e os deveres à vaga ideia de estado, como se o estado não fôssemos todos nós. Assim, o meu direito é sagrado, mas o dever é dos outros. Por esse raciocínio torto ninguém é responsável por nada, embora tenha todos os direitos possíveis.
Não sou contra os direitos, ao contrário, apenas acho que a conta não fecha. Se há um direito há também um dever, e se existe uma demanda existe também um custo, e se hoje há uma distorção entre os direitos e deveres, a obrigação de corrigir é da minha geração que não soube construir o equilíbrio. Esse é, portanto, o nosso maior dever.
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Cesar, adorei esse texto! Essa lucidez é que falta a nossos políticos, que adoram fazer favor com o chapéu dos outros (nós contribuintes). Um exemplo: todos querem se aposentar o mais cedo possível, com 50 anos se possível, e ganhando uma bela aposentadoria. E quem paga essa conta? Estudantes pagam meia entrada em espetáculos e no transporte público. Quem paga a conta? Nós, os não estudantes que temos que pagar muito mais caro. O governo paga milhoes em remédios para a AIDS porque é bonito e faz sucesso lá fora, enquanto quem sofre de um AVC (a maior causa de morte no país) não recebe o medicamento pelo SUS pois é muito caro (detalhe, só são necessárias 1 ou 2 doses. Equilíbrio? Realmente está em falta neste país!
ResponderExcluirObrigado, Solange. Temos mesmo muita coisa para nos deixar indignados, mas devemos procurar uma solução, já que nunca somos ouvidos. Bj.
ResponderExcluirCesar, ... importante esse assunto que você abordou!
ResponderExcluirOuço muito à respeito dos direitos das crianças e dos adolescentes (já que minha mãe é diretora de escola pública) e sou realmente a favor deles, mas onde estão os deveres?
Muitos adolescentes se acostumam a ter muitos diretos - e quem não se acostuma como o que é bom? - mas se esquecem que seus direitos terminam quando começam os direitos do outro. Aliás, alguns nem sabem disso. Lamentável!
Olá Tati! É verdade, a minha esposa é professora de escola pública por vocação e idealismo, e eu vejo quanto é difícil e sei bem como ela sofre com isso. Bj.
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