quarta-feira, 16 de junho de 2010

A copa do mundo

      Embora débil, a minha primeira lembrança de uma copa do mundo é de 1966, a copa da Inglaterra, quando o grande Eusébio da seleção de Portugal desclassificou a do Brasil, e a dona da casa ganhou o título. Porém a mais forte recordação que tenho é a da copa de 70, a primeira a ser televisionada e transmitida ao vivo para o Brasil, mas com a recepção ainda em preto e branco, pois ainda não havia sido criada a jabuticaba eletrônica chamada PAL M que utilizamos nas transmissões analógicas até hoje. Lembro-me do meu pai comemorando o título com uma bandeira oficial do Brasil, o que era proibido pelos militares, me lembro de comentar um dos jogos enquanto passeava de bicicleta, e também de um trabalho que fiz após as férias escolares em cuja capa desenhei a taça Jules Rimet. A seleção saiu desacreditada após uma pífia classificação e trocando o técnico na última hora, assumiu o João Saldanha. O esquema de jogo era o 4-3-3, e sou ainda capaz de escalar o time principal ser ter que recorrer à Wikipédia: Felix, Piazza, Brito, Carlos Alberto e Everaldo, Clodoaldo, Gerson e Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino. Time convincente e vencedor, que é lembrado pelos gols que fez e pelos que o Pelé deixou de fazer, como o do meio de campo contra o Uruguai, e também o drible de corpo no goleiro em que a bola caprichosamente saiu por muito pouco, e também no resultado apertado, o pior da campanha, com um magro 1x0 contra a Inglaterra, quando o goleiro Banks defendeu uma bola quase impossível sobre a linha. Eram os tempos do ufanismo criado pela ditadura, tempos dos 90 milhões em ação e do Brasil, ame-o ou deixe-o.

      Depois houve o nosso fiasco em 74 quando a holandesa Laranja Mecânica, com o inovador esquema do carrossel, perdeu a final para a burocrática mas eficiente Alemanha. Já quase no período da distensão, a copa da Argentina de 78, quando eu já trabalhava na retransmissão da Globo, e assistindo a uma comemoração na rua, um rojão atingiu uma marquise e estourou muito perto dos meus pés e me deixou com um zumbido no ouvido por muito tempo. Foi quando a ditadura militar inventou a estória do campeão moral, pois a seleção ficou em terceiro lugar sem ter perdido um jogo sequer, e houve a suspeita da compra do resultado do jogo contra o Peru pelo governo argentino. O técnico era o Cláudio Coutinho que veio a falecer por afogamento em um mergulho. Vieram os belíssimos times de 82 e 84 que não ganharam nada, mas que são lembrados até hoje pela qualidade, e que foram dirigidos pelo Mestre Telê Santana, que veio a ser bi-campeão mundial dirigindo o São Paulo.

      Houve ainda o fracasso da seleção de 90, aquela do Lazaroni e do Dunga, que apresentou um futebol ridículo. Depois tivemos os fracos resultados de 1994 mas que, por mais incrível que pareça, o time foi campeão, tendo como destaque o marrento Romário. Veio então a derrota para a França em 98, e a vitória dos erres, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo em 2002. Posteriormente a eliminação em 2006 para a mesma França do Zidane. Agora estamos sofrendo novamente com um time de bons jogadores, mas engessados por um esquema onde ganhar por 1x0 é goleada, esse time pode até ser campeão, pois é isso que a história valoriza, mas não enche os olhos.

      Há outra lembrança marcante dos craques de 70, é o comercial que o Gerson fez para uma marca de cigarros, onde o bordão, com o carregado sotaque carioca dizia: o importante é levar vantagem em tudo, cerrrrto? Essa fala ficou conhecida como Lei de Gerson, e tenho a impressão de tê-lo visto dizendo que se arrependeu de tê-la dito. Mas arrependimentos à parte, isso demonstra muito bem o nosso caráter. Podemos vê-lo na naquela “carteirada” da suposta autoridade dizendo “você sabe com quem está falando?”, do policial ou promotor que mata e fica impune, pois o espírito de corpo é maior que a própria justiça, e até por pequenos gestos como o ultrapassar pelo acostamento, o fura a fila do cinema, ao encontrar o seu lugar marcado já ocupado e você se sentindo constrangido por ter que pedir para que o folgado se mude, pelo motoqueiro que passa na sua frente e pára sobre a faixa para pedestres e avança antes que o sinal abra. A lista é longa e há alguns que são ilegais, mas não sei dizer se são crimes ou contravenções, me ajudem amigos advogados, mas sabe aquele seu vizinho, legal, amigável e que fala com autoridade moral digna de governo petista, mas cujo carro é emplacado em Curitiba para pagar menos IPVA? Pois é, ele está “levando vantagem” sobre você e te roubando, pois se ele não paga imposto, é você quem irá pagar. Em um país sério isso daria cadeia.

3 comentários:

  1. Acabou de passar no Jornal Nacional o vídeo com a cabeceada do Pelé e a defesa memorável do Banks que citei no post. Não é Jornal Nacional, é Fantástico!

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  2. Sabe que não curto futebol, só torço para o Brasil na copa, mas este ano estou tão distante e desacreditada que não consigo nem torcer direito, pois acho que até na copa tem interesses políticos e muito dinheiro envolvido, jogo de interesses. Acha que o Brasil ganharia esta e a próxima que será no brasil????? Bem bacana sua retrospectiva.........

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  3. Olá Rô! Sim, acho que esse time tem condição de ganhar a copa, porque há muitos bons jogadores brasileiros que seria possível montar pelo menos umas 3 equipes competitivas, mas para mim, vencer apenas não basta, a seleção tem que convencer e essa não convence.
    Você não é alvo da minha crítica, pois seu carro tem placas de Curitiba mas vc mora em Curitiba, aí não tem fraude! Bj.

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