Em um dos trajetos que faço para o trabalho foi inaugurada uma floricultura. Não foram as flores e plantas que chamaram a minha atenção, mas sim uma bandeira do Brasil que constantemente está hasteada. Eu tive aulas de Educação Moral e Cívica (EMC), que depois foram substituídas por OSPB (Organização Social e Política do Brasil), nas quais além da propaganda favorável ao governo militar havia também o patrulhamento ideológico. Nos era sugerida a demonização dos comunistas e dos subversivos. Nós, crianças, não sabíamos o que eram uns nem os outros, mas aprendemos quais são os Símbolos Nacionais. Não encontrei nenhuma pesquisa nesse sentido, mas o meu “achismo” garante que 9 entre 10 pessoas na rua não responderiam corretamente a essa questão: quais são os símbolos nacionais? Você sabe? Também acredito que 8 em 10 acertariam a bandeira e o hino, mas se esqueceriam do selo e das armas, também conhecido como brasão das armas. Saber então que no brasão tem um ramo de café e outro de fumo, esse florido, já é demais.
Também aprendemos que quem ouviu o brado forte e retumbante foram as margens plácidas do Ipiranga, que, aliás, na última vez em que fui ao Museu do Ipiranga, hoje Museu Paulista, há cerca de 3 anos, fui novamente às margens concretadas daquele esgoto a céu aberto. Um absurdo, seja real ou fictício, pelo simbolismo que representa aquele local deveria ter melhor sorte. Também revi a tela de Pedro Américo e não me importo se foi inspirada ou plagiada da tela Friedland de Ernest Meissonier, pela sua enormidade, beleza e representatividade, fiquei arrepiado só de vê-la. Mas voltando ao hino, também aprendi que: “um sonho intenso” vem na primeira parte, na segunda é “de amor eterno”; que é com braço forte, assim, no singular e não braços fortes, no plural, e também que é “em teu seio” e não “no teu seio”, e tem mais, para entoar o hino devia-se estar em posição respeitosa e não podia bater palmas ao final. Mas é sobre a bandeira que tenho mais recordações.
Em minha casa havia uma bandeira enorme, linda, em tecido bordado, mas para descaracterizá-la, se é que isso é possível, meu pai arrancou as tiras com a inscrição “Ordem e Progresso”, pois era proibido ter bandeira em casa. E foi com essa bandeira que o vi, sobre um caminhão comemorando a vitória do Brasil na copa do mundo de 70. Também me cobri com essa bandeira por várias vezes quando o frio era intenso e não tínhamos cobertores suficientes. Ela no meio de lençóis cumpria muito bem o seu papel. Para hastear ou arriar a bandeira deveria haver uma cerimônia com hora certa para acontecer e ela nunca poderia ficar hasteada se não estivesse iluminada e em perfeito estado. As bandeiras danificadas deveriam ser entregues ao exército que as incinerariam durante a cerimônia do dia da bandeira, 19 de novembro. Já adolescente eu imaginava que tanto rigor reduzia o patriotismo, pois eu já tinha ouvido o hino americano sendo tocado pelo Jimmy Hendrix com um solo de guitarra. Via os próprios americanos se vestindo com bandeiras estilizadas e bandeiras americanas sendo queimadas em toda parte do mundo. Eles, americanos, espontaneamente patriotas, e nós, brasileiros, patriotas obrigados, nem ter uma em casa podíamos.
Foi há muito tempo e não me lembro em que evento ocorreu, mas desde que pela primeira vez a Fafá de Belém entoou o Hino com uma melodia mais lenta, e para utilizar um termo atual, a relação com os símbolos foi flexibilizada. Hoje não temos mais a ditadura, e se depender de Brasília nem educação, nem moral e muito menos, civismo.
Em tempo, o logotipo da tal floricultura é uma bandeira estilizada e tem o sugestivo e patriótico nome de Garden Brasil.
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