Costumo dizer que tudo piora com o passar do tempo, e se há alguma coisa boa em ficar velho é olhar para determinadas situações e poder dizer: já assisti a esse filme. O filme completo é o das nossas próprias vidas, parece que o nascer e o envelhecer são as duas pontas da mesma corda que eram emendada e que em algum momento foi cortado. Quem morre por velhice precisa dos mesmos cuidados e da mesma assistência que o recém nascido, e também, igualmente, nada possui. É um como ciclo.
Hoje, que tenho muito mais passado que futuro, mas ainda, provavelmente, algum futuro, conheço o significado de acumular, e de várias coisas tenho mais do que preciso. Quando saí da casa de meus pais, aos dezoito anos, tudo o que eu tinha cabia em uma pequena e velha mala que nem minha era, e tinha também muitos sonhos. Hoje possuo muito mais do que várias malas, e os sonhos, que podem não mais ser os mesmos, também são muitos.
Fazia tempo que eu não me mudava, e na última, no mês passado, não trouxemos os maiores objetos que se tem em uma casa, e mesmo assim os nossos pertences vieram distribuídos em muitas caixas. Mesmo se passando quase um mês há várias caixas a serem abertas.
Não sei dizer se esse acúmulo me faz mais feliz, mas, com certeza, me trás mais segurança e conforto, não apenas conforto físico, mas também espiritual. É aquela sensação de sair de casa em viagem e passar vários dias fora. Viajar é muito bom, mas voltar para casa, para a família e para as próprias coisas é muito melhor.
Tenho certeza que eu viveria muito bem com muito menos, mas embora eu tenha desprendimento para certas coisas não consigo me desfazer de outras, por exemplo, tenho três bicicletas e pode ser que eu compre mais uma. Tenho uma para estrada e uma para trilha, até aqui é fácil de explicar, pois são equipamentos diferentes para duas atividades diferentes, a que eu compraria é porque não conseguiria ir a uma padaria e deixar qualquer uma das duas anteriores na rua, pois podem ser furtadas. Como as rodas são presas com o que se chama de blocagem, se eu as prendo pelo quadro podem furtar as rodas ou, se eu as prende-las pelas rodas, furta-se o quadro. Já a última é uma Caloi 10 de mais de 35 anos que mandei reformar. Não serve mais para as atividades que pratico, mas não achei um motivo para me desfazer dela. Há algum tempo consegui doar os meus discos de vinil e um toca discos com amplificador e caixas acústicas. Só fiz isso porque foi para o Marcelo, meu sobrinho que é músico e adora músicas. Achei que esse material, que continha até várias porcarias, estaria muito melhor com ele do que comigo.
Antes da mudança joguei fora muitos cadernos, trabalhos, xerox e apostilas de diversos cursos dos quais participei. Na mesma leva foram revistas e artigos que eu acumulava. Me livrei de tudo, mas foi com dor no coração. Agora, dentre as caixas que esperam para ser esvaziadas estão os meus livros. Há os que gosto muito, há os que não gostei, há os que ainda não li e, dentre esses,alguns que, provavelmente, não irei ler. Há, inclusive, vários livros técnicos, mas ainda não me sinto confortável para dispor deles. Não tenho o mesmo apreço por móveis, roupas, sapatos, tênis, que também tenho vários, e por eletrônicos como tenho por aquele amontoado de páginas que eu poderia facilmente substituir por arquivos eletrônicos, mas, os meus livros, não, ainda não!

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