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sábado, 11 de outubro de 2014

Os meus livros, não, ainda não!

 Costumo dizer que tudo piora com o passar do tempo, e se há alguma coisa boa em ficar velho é olhar para determinadas situações e poder dizer: já assisti a esse filme. O filme completo é o das nossas próprias vidas, parece que o nascer e o envelhecer são as duas pontas da mesma corda que eram emendada e que em algum momento foi cortado. Quem morre por velhice precisa dos mesmos cuidados e da mesma assistência que o recém nascido, e também, igualmente, nada possui. É um como ciclo.

      Hoje, que tenho muito mais passado que futuro, mas ainda, provavelmente, algum futuro, conheço o significado de acumular, e de várias coisas tenho mais do que preciso. Quando saí da casa de meus pais, aos dezoito anos, tudo o que eu tinha cabia em uma pequena e velha mala que nem minha era, e tinha também muitos sonhos. Hoje possuo muito mais do que várias malas, e os sonhos, que podem não mais ser os mesmos, também são muitos.

      Fazia tempo que eu não me mudava, e na última, no mês passado, não trouxemos os maiores objetos que se tem em uma casa, e mesmo assim os nossos pertences vieram distribuídos em muitas caixas. Mesmo se passando quase um mês há várias caixas a serem abertas.

      Não sei dizer se esse acúmulo me faz mais feliz, mas, com certeza, me trás mais segurança e conforto, não apenas conforto físico, mas também espiritual. É aquela sensação de sair de casa em viagem e passar vários dias fora. Viajar é muito bom, mas voltar para casa, para a família e para as próprias coisas é muito melhor.

      Tenho certeza que eu viveria muito bem com muito menos, mas embora eu tenha desprendimento para certas coisas não consigo me desfazer de outras, por exemplo, tenho três bicicletas e pode ser que eu compre mais uma. Tenho uma para estrada e uma para trilha, até aqui é fácil de explicar, pois são equipamentos diferentes para duas atividades diferentes, a que eu compraria é porque não conseguiria ir a uma padaria e deixar qualquer uma das duas anteriores na rua, pois podem ser furtadas. Como as rodas são presas com o que se chama de blocagem, se eu as prendo pelo quadro podem furtar as rodas ou, se eu as prende-las pelas rodas, furta-se o quadro. Já a última é uma Caloi 10 de mais de 35 anos que mandei reformar. Não serve mais para as atividades que pratico, mas não achei um motivo para me desfazer dela. Há algum tempo consegui doar os meus discos de vinil e um toca discos com amplificador e caixas acústicas. Só fiz isso porque foi para o Marcelo, meu sobrinho que é músico e adora músicas. Achei que esse material, que continha até várias porcarias, estaria muito melhor com ele do que comigo.


      Antes da mudança joguei fora muitos cadernos, trabalhos, xerox e apostilas de diversos cursos dos quais participei. Na mesma leva foram revistas e artigos que eu acumulava. Me livrei de tudo, mas foi com dor no coração. Agora, dentre as caixas que esperam para ser esvaziadas estão os meus livros. Há os que gosto muito, há os que não gostei, há os que ainda não li e, dentre esses,alguns que, provavelmente, não irei ler. Há, inclusive, vários livros técnicos, mas ainda não me sinto confortável para dispor deles. Não tenho o mesmo apreço por móveis, roupas, sapatos, tênis, que também tenho vários, e por eletrônicos como tenho por aquele amontoado de páginas que eu poderia facilmente substituir por arquivos eletrônicos, mas, os meus livros, não, ainda não! 

domingo, 14 de setembro de 2014

Eu Sei Que Vou Chorar

      Tenho um sentimento muito forte de pertencimento. Eu não possuo, eu pertenço. Pertenço às coisas, pertenço aos lugares, e, principalmente, pertenço às pessoas.

      Meu primeiro e significativo ponto de inflexão foi fácil. Saí, ainda adolescente, rebelde e arrogante da minha cidade natal, com seus 45 mil habitantes para estagiar em uma grande empresa em São Paulo. Deixava a família, era um jovem assustado mas destemido e desejoso de mudar uma estória de privações. Após alguns meses e já iniciando uma carreira de muito trabalho, liderança, viagens e hotéis me fixei em Campinas, uma cidade de 600 mil habitantes e onde já moravam o meu irmão, um técnico em ascensão profissional e a minha, então namorada e até hoje, esposa. Foi uma felicidade só.

      Quatro anos depois, com uma carreira profissional sendo encaminhada, casado e com uma filha, fizemos a mudança para Ribeirão Preto. A transição levou cerca de 3 meses, e como se repetiria, fui primeiro para trabalhar, mas retornando para casa aos finais de semana até que a mudança definitiva se efetivasse. Com grande senso de responsabilidade e profissionalmente progredindo senti a primeira perda. Fui de uma cidade muito maior para uma pior que tinha a metade da população de Campinas, além de ser suja, quente, empoeirada e fedida. Ribeirão fedia a plantação de cana e sofria com as populações migratórias de andorinhas. A praça central era imunda e cheia de fezes das aves que faziam uma bela revoada, mas emporcalhavam a cidade e a tornava mais fedida. Mesmo sem revelar a insegurança, fui entristecido. Deixava para trás um forte ambiente no qual me sentia totalmente inserido.

      Mas também deu certo. Depois de 8 anos, já com um filho, casa própria e exercendo cargo de liderança nos mudamos para Varginha. Novamente saia de uma cidade com cerca de 400 mil habitantes, rica, crescendo e da qual eu já conhecia os lugares bonitos para outra que contava os seus 80 mil habitantes. Longe, feia e com péssimas estradas. Comecei a trabalhar e a frequentar a cidade em fevereiro de 1988 e a mudança se concretizou em agosto. Me recordo como se fosse hoje, quando a transportadora carregou a nossa mudança, eu, sozinho, dei uma volta no anel viário de Ribeirão e chorei. Chorei de saudade daquilo que eu deixaria para trás.

      Também deu certo. Em Varginha por apenas dois anos e meio a família não cresceu, não comprei casa, mas avancei profissionalmente, pois já liderava um departamento e não apenas uma área. Novamente nos mudamos. Para exercer a mesma função porém em uma cidade maior, São Carlos, que então estava com 170 mil habitantes, o meu sentimento era de ganho e praticamente não teve transição. Em dezembro de 1990  tomamos a decisão, em 2 de janeiro comecei a trabalhar e no dia 23 do próprio mês já estávamos na nova casa. Porém a mesma situação se repetiu. No último dia em Varginha, novamente sozinho, ao dar uma volta no entorno da cidade, chorei. Chorei pelo que construí e pelos amigos que estava deixando.

      Foram 23 anos em São Carlos, onde meus filhos estudaram e cresceram, a Nega e eu também estudamos, crescemos e fincamos raízes. Profissionalmente estabilizado e muito satisfeito iniciei nova negociação que durou cerca de 5 meses, e com outros 5 meses de transição me encontro em nova mudança. A partir de amanhã meu endereço passa a ser na Bahia. Estou trabalhando em Salvador e iremos residir na vizinha Lauro de Freitas. Salvador é imensa, com mais de 3 milhões de habitantes e com a pobreza e a riqueza convivendo lado a lado. Lauro de Freitas, muito menor, parte da região metropolitana e caminho da chamada Linha Verde que liga a capital ao litoral norte é movimentada e feia, mas o oceano conserta tudo.

      Além do que construí em São Carlos não estarei deixando apenas o maior período que vivi em uma só cidade, mas também a minha filha, que aqui continuará residindo para seguir a sua própria vida. Tive muitos motivos para fazer essa escolha, e como tudo que ocorreu até agora, acredito que, assim como fui muito feliz aqui, também serei lá. Trabalho e desafios não me faltarão, mas como bem sei, “no pain, no gain”.

      Há duas semanas, quando voltava a São Carlos para ver a família bateram em meu carro, assim, hoje, não conseguirei dar uma volta na cidade e ainda sairei por um caminho inesperado, através do aeroporto de Araraquara. Caminho que muitas vezes fiz e refiz de bicicleta. Caminho que conheço bem, onde fiz muita força tentando superar meus limites e o de hoje será o maior esforço de todos, o de conter o choro, pois sei que irei chorar, aliás, já estou chorando. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O próximo passo.

      Essa época do ano é especialmente própria para a tomada de decisões, principalmente por jovens que estão concluindo os seus cursos técnicos ou graduações, ou por aqueles que vislumbram melhores oportunidades profissionais. Mas como toda escolha implica em pelo menos uma renúncia, a pergunta vem sempre acompanhada pelo medo: estou fazendo a escolha certa?

      Muitas vezes fui o interlocutor de amigos que estavam nessa situação e, especialmente, por alguns que sempre se preocuparam em desenhar a sua carreira não ficando apenas como observador do tempo esperando que algum milagre viesse do céu e o iluminasse. O lado bom é que de certa maneira me realizo nas decisões corretas, e nem posso dizer que em alguns desses casos houve fracassos, houve sim algumas perdas momentâneas, mas que foram seguidas de ganhos significativos, e o lado ruim é que me sinto mais velho a cada vez que me deparo diante dessa situação.

      Durante a minha carreira eu mesmo me vi nessa situação, se eu desse mais um passo poderia ter muitos ganhos ou muitas perdas, e o que fazer? Em primeiro lugar, conversar sobre o assunto não faz mal a ninguém, mas é importante que se tenha a consciência de que a responsabilidade pela decisão tomada é toda sua, pois opiniões são apenas isso, opiniões, e devem ser consideradas apenas como um ângulo diferente de se observar a mesma situação.

      Deve-se observar se há algum risco físico para você, ou se você o produzirá para outro, caso positivo, abandone essa ideia. Riscos psicológicos sempre existirão, pois, por mais que se acerte, sempre ficará aquela dúvida: e se eu tivesse feito a outra escolha? Tenha essa dúvida até a tomada da decisão, após isso, esqueça a outra possibilidade, a partir de agora ela só irá te atrapalhar, o importante nesse caso é saber se você tem estabilidade psicológica suficiente para aguentar essa pressão, principalmente nos períodos iniciais.

      É importante também fazer o balanço da condição que envolva terceiros. Se eu fizer, ou deixar de fazer isso, qual impacto produzirei na vida das pessoas próximas? Especialmente no caso em que envolve mudanças de localidades e há uma relação de casal ou família estabelecida, a preocupação aumenta. O mais comum nesse caso é que aquele que pode dar maior contribuição financeira tome a decisão e os outros o seguem, a situação fica mais fácil se for com apoio, pois do contrário, os laços podem ser rompidos.

      Muito importante para a mudança de emprego é conhecer a empresa e, principalmente, o ambiente que você vai encontrar. É primordial conhecer o futuro chefe e saber qual é a sua condição de conviver bem com ele. É preferível ter um rendimento reduzido em um local em que você possa adquirir conhecimento e pleitear crescimento naquela ou em outra empresa, a ter um maior ganho financeiro inicial e ficar estagnado pelo resto da vida.

      Agora, se você é jovem, ainda sem uma carreira consolidada, sem perspectivas imediatas de crescimento rápido, sem vínculos consolidados, e observados os itens acima, demorô! Como se dizia em uma gíria recente. Não há motivos para ter dúvidas.