Dizer que o mundo mudou ou que as coisas não são mais como eram antigamente é lugar comum, pois sempre foi e será assim, o progresso de hoje é o atrasado do amanhã. As tecnologias tidas como revolucionárias e disruptivas, se vistas no curto espaço de tempo, foram, na verdade, gradualmente implementadas, isso ocorreu com a energia a vapor, com a energia elétrica e com a tecnologia da informação. Todas mudaram de maneira substancial, e sem volta, o modo de vida, e continuam evoluindo. Meu primeiro contato com computador foi em meu primeiro emprego com registro em carteira, isso há 42 anos. Está certo que o equipamento que tinha o tamanho de uma sala comercial era incapaz de executar um décimo do que um telefone celular de hoje faz, mas era um produto comercial. Uma das virtudes dessa tecnologia foi a agregação de funções, passando de simples executor de tarefas repetitivas para ser elemento de transformação social e do conceito de comunicação.
Com a popularização da rede mundial de computadores a partir dos anos 90 do século passado a sociedade ganhou voz, e com o advento das redes sociais deram-se vários fenômenos, dos quais destaco dois:
1 - criação instantânea de celebridades, mesmo que, em muitas das vezes, efêmeras,
2 - destruidora de reputações.
É dado valor a quem merece por alguém que daquilo gosta, comunga e compartilha, assim, mesmo que eu não reconheça alguns valores, a minha opinião não importa se aquilo é o que muitos desejam. Logo, mesmo que eu não os reconheça como célebres, os outros assim os determinam e ponto. São o que são.
Somos complacientes com o que nos afeta e críticos contumazes daqueles que nos desagradam, e esse comportamento criou uma engrenagem informal que deu velocidade à maledicência. Os destacados Fake News são um exemplo. Não importa se não é verdade, a aparência é o que valida. O curioso é que nesse mecanismo nos associamos com os amigos em alguma causa e com os inimigos em outra, por exemplo, podemos defenestrar os torcedores do time adversário, mas sermos seus aliados políticos. Os xingamos no primeiro caso e os aplaudimos no segundo, e podemos mudar de lado quando nos aprouver.
A boa reputação sempre foi difícil de ser construída e fácil de ser desmanchada e ainda demora uma vida para que alguém possa ser bem avaliado, mas a duração de um clique é suficiente para destruí-lo. E nesse sentido, aquilo que pode ser classificado como politicamente incorreto é campeão, veloz, certeiro e destruidor.
Tivemos recentemente dois casos que tiveram o racismo como condição e o resultado foi devastador. A Ministra da Pasta do Direitos Humanos, reivindicando o direito de manter a sua aposentadoria como desembargadora e o salário de ministro, função em que efetivamente atua, disse em sua petição “…sem sobra de dúvida se assemelha ao trabalho escravo”. A tal frase foi lapidar. Jogou por terra toda a carreira construída ao longo de décadas de trabalho, estudo, promoções e ativismo. Não importa o que foi construído, o que importa é ter associado o termo escravo a um salário somado de cerca de R$ 33.700,00. Foi um argumento errado? Admitamos que sim. Foi uma colocação desastrada? Sim, foi. Ela perdeu uma boa oportunidade de ficar calada? Sim, perdeu, mas a carreira dela não tem valor? Se visto de outra maneira isso poderia ser diferente? Vejamos: se a Ministra estivesse liderando uma manifestação de valorização das minorias pobres e negras e dissesse que o salário recebido por essa parcela da população é insuficiente e que para sair dessa miséria que se assemelha a escravidão cada um teria que receber pelo menos R$ 30.000,00 de salário nada teria acontecido. Nada mesmo. Para mim a reação contra ela foi exagerada, mas essa marca será sempre lembrada em detrimento a tudo mais que ela construiu.
Na semana passada passou a circular o vídeo gravado há um ano em que um jornalista, embora com parte inaudível, mas dedutível, parece dizer ”…é preto... coisa de preto". De acordo com o contexto pode ser considerado racismo? Sim, pode. Ele pode vir a ser processado e condenado? Pode. Pode perder o emprego? Tanto pode que afastado da função já está, mas eu duvido que de fato ele seja racista. Que ele não tenha amigos negros, que não admire e tenha se inspirado em negros, que não respeite pessoas de raça negra. Reconheço que para os negros isso é um acinte, mas o caso foi amplificado justamente pelo fato de que ele é um jornalista culto, inteligente, competente, referência, e por trabalhar em um veículo de credibilidade e grande penetração. Haverá negros que se sentirão ofendidos e outros que poderão classificar como bobagem, mas muitos não negros que o acusam podem ter feito coisas piores, porém não foram flagrados. Será que esses nunca contaram ou riram de uma piada sobre negros, gays, argentinos ou portugueses ou ainda, não praticaram bulling na escola? Não haverá no meio desses acusadores uma grande parcela de falso-moralistas que se aproveitam da oportunidade para simplesmente se manter em evidência? Não estou aqui para defender o jornalista, pois ele é muito mais capaz e competente para fazer isso, além do que nunca precisou ou precisará de mim, mas será que nós precisamos ser assim?
Eu gostaria que internet e as redes sociais fossem lembradas muito mais por aquilo que elas podem construir do que que pelas reputações que elas podem arrasar, mas esses são apenas os meios, o que importa são as pessoas que os utilizam. Quanto às celebridades meteóricas, bem, deixem pra lá…
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