Em
dezembro a Nega e eu completaremos 38 anos juntos e ela, que me conhece bem,
costuma dizer que tenho estômago de avestruz, couro de jacaré e que eu gostaria
de ser americano. Meu estômago não aceita mais incólume um copo cheio de chá de
alho como outrora, o “couro” também piorou, ao ponto de ter que usar
protetor solar para sair de casa com o sol forte, mas que gosto da língua inglesa,
dos Estados Unidos e da sua cultura, isso sim.
Tenho
medo dos extremos, acho-os todos perigosos, mas admiro a cultura do mérito, da
conquista de acordo com a capacidade, do esforço e da determinação na busca
pela vitória, e deve ser por isso que os esportes me fascinam. Não gosto da
rispidez nas relações que os europeus e americanos têm, mas a obsessão deles por
vencer pode ser vista nas olimpíadas. São muitas as leituras que podemos fazer
dos resultados, mas há três comportamentos que eu gostaria de destacar.
Enquanto o Brasil patina no quadro de medalhas, os Estados Unidos e a China
brigam pela liderança. Durante toda a minha vida os americanos estiveram na
ponta e o papel que hoje a China representa foi da União Soviética e de seus
associados, como Alemanha Oriental e de Cuba.
Culturalmente
os americanos são incentivados a vencer e há apoio financeiro e tecnológico aos
seus atletas. O sistema de descoberta de talentos vem das escolas, com
campeonatos locais, regionais e nacionais e começa bem cedo. Já na China há a
imposição do governo que “fabrica” muitos dos atletas e eles são obrigados a
vencer por imposição do estado. Há o caso conhecido do casal de jogadores de
basquete que foram obrigados a ter filho para gerar bons jogadores, e também há
a denúncia de que o governo separa as crianças da família e as obriga a
participar de sessões intensas de treinos, que são incompatíveis com a idade e
com o desejo.
Já
no Brasil são os clubes que formam os atletas e os que se destacam conseguem
algum patrocínio. O nosso modelo é mais próximo do americano e é bom que assim
seja, pois numa democracia não tem lugar para a intromissão do estado na vida
privada, mas, por outro lado, há muito menos clubes que escolas, logo, na base,
levamos desvantagem. Grande parte das medalhas brasileiras vem de esportes de
elite como hipismo e iatismo cujos atletas têm condição de se manter, porém nas
demais modalidades, sem planejamento e sem apoio do governo não há como obter
bons resultados, salvo casos excepcionais.
Além
da estrutura equivocada e da falta de apoio, a nossa cultura não é a do
vencedor, o brasileiro gosta do esforçado e do desfavorecido. A eleição do Lula
não foi uma eleição de ideal político, mas a luta do pobre trabalhador sem escolaridade
contra a elite intelectualizada. Até o reality show Big Brother teve suas
regras mudadas, pois quando dependia de votação ganhava o pobre ou o
representante da minoria, nunca o bonitão ou a gostosona. Em todos os jogos há
os brasileiros que saem desapontados por um resultado muito abaixo do esperado
e não os culpo, pois eles possuem algum resultado expressivo, mas são o retrato da
nossa estória, da nossa cultura, na verdade, são os nossos representantes.
Poderíamos
até dizer que os brasileiros adotaram o espírito dos jogos “O importante é
competir”. Coisa nenhuma! O importante é ganhar, e ganhar o ouro, pois ninguém
ganha a prata, perde o ouro. Enquanto o brasileiro é preparado para participar,
o nosso adversário é preparado para vencer.
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