Robin Hood é só lenda, e inglesa, de longe daqui. Nossos
bandidos não têm nada de românticos justiceiros. Não roubam dos ricos para
distribuir aos pobres. Roubam porque podem, roubam porque querem, e roubam, e
matam, porque gostam.
É verdade que a nossa economia não anda lá essas coisas e
deve piorar, mas é equivocada a ideia de que a delinquência só existe porque há
a má distribuição de renda. O Brasil saiu do estado de colônia agrícola e
escravocrata e em menos de 200 anos se transformou na sétima maior economia do
mundo, e desde os últimos anos do século passado passa por um período de
prosperidade, e a criminalidade não diminuiu na mesma proporção. Ao contrário,
aumentou.
Há bandidos em todos os níveis sociais e culturais e é
provável que a corrupção de alto nível faça mais vítimas do que as produzidas
por assaltantes, sequestradores e estupradores. Porém quando o crime é
praticado com violência explicita e próximo da gente, choca muito mais. Ser
delinquente é uma opção que está ligada à distorção de valores morais e
familiares, e não dá para imputar a culpa ao coletivo quando essa é praticada
por indivíduos.
O combate à criminalidade não se dá apenas com investimento
em repressão ou inteligência reativa. Os autores de Freakonomics mostraram que
o aumento do aparato policial e das despesas em segurança não impediu que o
crime também se expandisse em Nova Iorque no final do século XX, e que o decréscimo
só começou a ocorrer 17 anos após a aprovação da lei que permite o aborto
voluntário na rede pública de saúde. O
aborto pode ser questionável, mas o planejamento familiar e o controle da
natalidade podem produzir o mesmo efeito.
Considerando a relação custo / benefício, o crime compensa.
Todos sabem que a investigação policial é falha, que a justiça é lenta, que a
protelação existe e que a possibilidade de absolvição por falta de provas ou
por decurso de prazo é muito grande. Se o criminoso for menor de 18 anos a
impunidade é quase certa, e se não for, é mínima. As penas não são condizentes
com a gravidade das ações.
Hoje, além de ocorrer em maior número, os crimes também
chocam pela ousadia e brutalidade. Os bandidos são melhores armados que os
policiais e mais abastados do que muitas de suas vítimas. Já se matou porque a
vítima tinha somente trinta reais na conta corrente, e mulheres, inclusive uma turista
estrangeira, foram estupradas por uma gang que sistematicamente repetia a ação utilizando
uma van preparada para a abordagem e sequestro das vítimas.
Uma das características das sociedades civilizadas é o
monopólio da violência pelo governo, esse, e apenas esse, pode punir ou
decretar guerras, portanto, é do governo que deve partir a solução, mas essa
não virá sem a pressão popular, que em última instância é quem delega os poderes,
até porque nos governos estão instalados corruptos e corruptores, nadando a
favor da correnteza, em ambiente mais do que propício. No Brasil, sabendo
fazer, tudo é permitido, inclusive o que é proibido.
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