quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ontem, ao telefone, eu chorei.

      Não sou empresário, não sou empreendedor e não sou profissional liberal, sou empregado. Desconsiderando os subempregos da adolescência e o meu primeiro registro como auxiliar de escritório, sou há 33 anos profissional de televisão, sendo 31 em 3 empresas desse mesmo grupo em 4 diferentes cidades. Considero uma excelente empresa e tenho orgulho em dizer que sempre tive as melhores condições de trabalho. Imagino até que perdi um pouco da minha criatividade, pois não preciso improvisar muito, mas ganhei em eficiência e realizações. Nós costumamos dizer que a empresa é uma mãe, mas ouvi uma garota, da qual eu não esperava nada tão inteligente, dizer que, na verdade, a empresa é uma avó, pois as mães, às vezes, dizem não!

      Também costumo dizer que tive 4 pais, o biológico que faleceu por problemas relacionados ao coração e agravados por bebida e cigarro, mas que geneticamente me transferiu algumas habilidades e foi o responsável pela minha formação e caráter. Tive ainda 3 pais profissionais, o primeiro não me ensinou muito, mas confiou em mim e deu-me todas as oportunidades, inclusive me demitindo do primeiro emprego onde era o meu chefe e me contratando em sua própria empresa e depois me indicou para uma vaga no grupo atual. Ele faleceu em decorrência de uma profunda depressão, mas eu pude demonstrar o quanto ele foi importante em minha vida. O meu segundo pai profissional foi o primeiro diretor técnico desse grupo. Bom engenheiro e, como judeu, excelente administrador. Uma pessoa que se posicionava vários níveis acima das demais, não por arrogância, mas por conduta, era, enfim, um lorde. Ele também não me ensinou muito, mas foi com ele que aprendi sobre administração e foi também o responsável por todas as oportunidades que tive e aproveitei, além de ter-me tirado de um monte de encrencas que criei durante o início da minha carreira quando eu ainda era muito ignorante e arrogante; infelizmente ele veio a falecer vitimado por um câncer de pele, contra o qual lutou bravamente.

      O último deles despediu-se de mim ontem por volta das 7 da noite. Simplesmente decidiu deixar a empresa porque a sua meta é viver bem e praticar a engenharia em sua essência sem precisar se envolver em disputas tolas. Trabalhamos juntos por 17 anos e sempre que íamos nos encontrar eu deixava papel, lápis e borracha disponíveis, pois certamente eu iria ouvir a pergunta: você sabe como isso funciona? E lá vinham vários desenhos e contas, muitos dos quais ainda preservo pois poderão ser-me úteis. Além de excelente engenheiro ele é um visionário e responsável pelas decisões estratégicas que ao longo do tempo se mostraram produtivas, no entanto achava ser enfadonha a administração do dia-a-dia. Durante toda essa convivência eu briguei com ele umas duas ou três vezes, mas ele não brigou comigo e ainda me apoiou, e mais do que isso, me dava autonomia para decidir e fez com que eu entendesse que a administração de pessoal é antes de tudo uma questão de justiça. Assim posso dizer que além de uma autoridade brasileira para os assuntos de radiofrequência, para mim ele é uma referência moral.

      Sou uma pessoa de sorte pois nunca tive chefe ruim, mas ontem, ao falarmos ao telefone, eu chorei.

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