sábado, 17 de julho de 2010

A Última Aula

      Foi a última aula porque ocorreu ontem, não porque não haverá outras. Ontem o ex-diretor veio despedir-se de nós que trabalhamos com ele e, evidentemente, almoçamos juntos. Foram cerca de 3 horas em que mais ouvi do que falei, o que é muito difícil de ocorrer, pois às vezes me considero um bom falante e péssimo ouvinte. Ouvi atentamente o relato de várias situações e de todas as suas razões para desligar-se da empresa que ele considera excelente, e que é também aquela em que ele trabalhou por mais tempo, mas com tal clareza não posso deixar de lhe dar razão.

      Trabalhar é bom, e para muitos como eu, é também necessário, mas há várias maneiras de se trabalhar, pode-se fazer o que se pede, fazer o que precisa ser feito ou fazê-lo porque se gosta. Isso pode ser um fardo ou um prazer que depende de vários fatores. Já fiz a seguinte pergunta a várias pessoas: o que mantém uma pessoa na mesma empresa por muito tempo? Invariavelmente as respostas passam por competência e honestidade. Meio certo! E como dizia um professor que tive, um teorema meio certo é totalmente errado. Honestidade não é uma qualidade que se deseja, ser honesto é obrigação, e competência que é sim desejável, nem sempre é o fator decisivo, pois sempre que se trabalha em grupo, um supre a dificuldade do outro, e se o menos habilidoso é uma pessoa boa, daquelas que todo mundo gosta, ele vai ficando, fazendo as suas tarefas que com o tempo se aprende de tanto repetir e vai levando a vida... Para mim só permanece por muito tempo aquele que assimila a cultura da empresa, sim, pois embora haja alguns padrões de funcionamento, cada empresa tem a sua própria identidade, e decifrá-la é imperioso para quem quer se manter, digamos, estável. É claro que ao longo do tempo ocorrem desgastes, mas o adaptado se sente bem, já aqueles que não se identificaram com a empresa ou sairão logo ou serão os eternos descontentes.

      É doentio ficar brigando com tudo, com todos e com o mundo, já, fazer o que se gosta é saudável, principalmente na vida profissional que é o longo período em que a pessoa é mais produtiva, e o local de trabalho costuma ser aquele onde mais tempo se passa e também onde os maiores relacionamento se desenvolvem. Porém quando se é empregado nem sempre é possível fazer somente o que se gosta, há sempre alguns processos, ritos e formalismos a serem cumpridos. O conhecimento aumentou, a tecnologia se desenvolveu e a riqueza cresceu, mas os tais processos são perpétuos e modificaram-se apenas para dar mais trabalho. Há 20 anos os assuntos profissionais eram tratados com ofícios e memorandos datilografados, os internos eram distribuídos manualmente e os externos enviados pelo correio, eu costumava emitir cerca de uns 250 a 300 por ano, ou seja, menos de um por dia. As ferramentas imediatas eram o telefone e o fax, que já havia sido a inovação, pois antes era o telex. Após a expansão das comunicações e da internet com os seus e-mails, com o telefone celular e com as planilhas de cálculo, o imediatismo aumentou e a quantidade de informação ganhou a estratosfera. Fico constantemente conectado, recebo e manipulo pelo menos umas 40 mensagens pertinentes ao dia, fora o monte de lixo, muitos dos quais apago sem ler, e sempre tenho uma tabela para analisar. As ferramentas são boas? Sim, mas a exigência é grande e administrá-la toma mais tempo do que, no meu caso, fazer engenharia.

      Além disso somos governados por uma legislação trabalhista arcaica. Muitas vezes vemos reportagens de trabalho escravo no campo ou sem condições de segurança na cidade, onde e a lei é necessária, mas não necessariamente cumprida. Já nas corporações mais sofisticadas onde o nível mínimo de educação exigido é o chamado segundo grau e onde predominam os funcionários que possuem cursos de graduação, essa tutela é totalmente desnecessária e inaceitável. Apesar da tecnologia possibilitar, os processos não se modificam porque a lei não permite e os sindicatos não participam para o avanço, mas influenciam apenas para continuar arrecadando e gerando um punhado de políticos retrógradas, corruptos e interessados em aparelhar o estado e perpetuar-se na mamata. Dessa maneira temos que continuar engessados em bancos de horas, horas extras, documentos inúteis e produtividade baixa. Por que isso não pode ser diferente? Não seria possível ser remunerado pela função e poder escolher como, onde, quando trabalhar e produzindo o que se espera? Essa não é uma relação mais justa e digna de duas partes mais esclarecidas e comprometidas?

      Pois é, quantas pessoas têm capacidade para perceber isso e mesmo precisando trabalhar têm a coragem de dizer: para mim isso basta. Quero qualidade de vida, vou fazer ciência e viver do meu conhecimento. Essa foi a minha última aula.

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