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sábado, 7 de novembro de 2015

Ribeirão Preto - A escola.

      Sai do colégio técnico em 1976 direto para o trabalho, me afastei dos estudos e senti falta. Não que eu goste de estudar, gosto de aprender e se possível do jeito mais fácil. Em Ribeirão Preto comecei umas três vezes a estudar inglês e desisti antes de completar o segundo livro, pois também não sirvo para ficar fazendo simulaçõezinhas com grupo de alunos. Só voltei a estudar formalmente em 1987 mas interrompi após o primeiro ano do curso de Administração de Empresas porque me mudei em 1988. No entanto, mesmo no ambiente profissional tive duas experiências que valeram por um curso. A gente trabalhava muito, éramos muito responsáveis e produtivos, mas gostávamos de nos divertir e o ambiente era muito bom. Assim também nos lançávamos em outras searas.

      A empresa adianta o salário quando se tira férias, e quando retornávamos ao trabalho só tínhamos contas. Criamos um caixa com contribuição mensal durante um ano fazendo depósitos em uma caderneta de poupança. Após o período de carência passamos a fazer empréstimos a nós mesmos sob algumas regras que criamos e pagávamos parcelado com juros de poupança a nós mesmos. Como era um grupo de umas 8 pessoas e todas camaradas, o resultado foi muito bom. O sucesso pôs fim no negócio, tínhamos tanto dinheiro em caixa que não sabíamos mais o que fazer com ele. Compramos alguns trecos que queríamos para uso coletivo e ao final cada um ficou com a sua parte corrigida monetariamente e com juros. Fiquei com menos dinheiro mas guardo até hoje uma luneta que compramos para ver o Cometa Halley em 1986. Tentei repetir essa experiência mais tarde com outro grupo mas não deu certo, pois essa turma não estava tão unida. Ironicamente esse projeto tinha o carinhoso nome de Pró-Sufoco.

      Havia a turma do futebol que jogava, jogava, jogava e não ganhava nada. Participava das Olimpíadas do Trabalhador, organizada pelo Sesi e as equipes de futebol e futebol de salão eram desclassificadas e na classificação geral era um desastre, a empresa ficava nas últimas colocações. Veio então a ideia de se criar um grêmio primordialmente esportivo. Articulei com um companheiro de cada área e formamos uma comissão provisória com 10 representantes e organizamos um plebiscito no qual propusemos duas questões:
1 - Se os funcionários apoiariam a criação de um grêmio esportivo.
2 - Se eles aprovariam a Comissão Provisória para organizar as regras de uma eleição.
É claro que fomos aprovados em ambas as questões com taxa de sucesso maior que 90% e a saga começou.

      Imediatamente, ainda como comissão provisória e sem dinheiro tínhamos que participar da famigerada olimpíada. Nos desdobramos, participamos de muitas modalidades envolvendo a maioria dos funcionários. A participação deixou de ser apenas dos times de futebol, mas contávamos entre outras modalidades com atletismo, natação, vôlei, basquete, tênis de campo e mesa, xadres, enfim, o máximo que podíamos. Éramos de uma empresa pequena, com pouco mais de 100 funcionários e disputamos com empresas grandes, algumas10 vezes maior do que a nossa, e entre a média de 30 empresas começamos a figurar entre os 5 melhores classificados.

      Organizamos as eleições e a comissão provisória formou uma chapa. Participamos e ganhamos também com mais de 90% dos votos. Foi um ano difícil e de muito trabalho. Criamos um sistema de arrecadação mensal com 3 faixas de valores onde quem ganhava mais pagava mais, e também revendíamos umas camisetas e o caixa começou a aumentar. Com a ajuda de um advogado criamos um estatuto que não chegou a ser registrado, mas o processo foi uma experiência enriquecedora.

Eu jogando futebol de salão no SESC em um campeonato interno - 1985

      Tínhamos uma oposição ferrenha, shiita, hoje eu diria: petista, que era formada por aqueles 10% que perderam as eleições. Eles não nos davam sossego, e pasmem, eram nossos amigos! Tudo que fazíamos era motivo de críticas severas, daquelas de se desconstruir tudo, e houve uma falha grotesca da minha parte. Nosso diretor Financeiro cuidava do caixa e dos investimentos. Certa vez um diretor da empresa me perguntou sobre o grêmio e a conversa foi para o lado do dinheiro. Eu falei de quanto dispúnhamos e que estava aplicado no Banco Comind que melhor nos remunerava e cobrava uma menor taxa de administração. Ele me disse: tire o dinheiro de lá que o banco vai quebrar. Fiquei apavorado e por cerca de um mês cobrei isso diariamente do Diretor Financeiro mas sempre havia um contratempo da parte dele e não íamos até banco. No dia 19 de novembro de 1985 o banco sofreu uma intervenção federal e as contas foram congeladas. Eu que costumava chegar cedo ao trabalho naquele dia me atrasei. Fui com o Diretor Financeiro a outro banco e abrimos uma conta com o mesmo valor que estava aplicado. Entrei com 70% e ele com 30%. Para fazer esse depósito utilizei dinheiro emprestado do Pró-Sufoco. Quando cheguei na empresa havia um "batalhão de inquérito" e sustentei que o dinheiro estava a salvo no Itaú. Depois de muito tempo o dinheiro retido no Comind foi devolvido em 10 parcelas.

      Participamos de mais um campeonato e dessa vez melhor estruturado e graças a diversos talentos individuais ficamos em terceiro lugar na classificação geral, fomos campeões em várias modalidades e finalistas em outras tantas, isso foi um grande feito reconhecido pelo próprio Sesi e pelas outras companhias. Realizamos campeonatos internos e fomos campeões no torneio de verão do Sesc, foto abaixo. Mas não nos limitávamos aos esportes, participávamos de algumas campanhas e queríamos fazer diversos convênios que estavam sendo alinhados mas não foram concluídos pela falta do estatuto registrado. Editávamos um jornalzinho que era feito à base de tesoura, cola e xerox. Tínhamos a colaboração de um artista de renome nacional, o cartunista Pelicano, que é irmão do também cartunista Glauco. Pelos editoriais que eu escrevia, certa vez recebi um elogio do grande jornalista e escritor João Garcia, o que me deixou muito feliz. Sei que tenho um exemplar do jornal, quando eu o encontrar edito essa postagem.
Campeões do Torneio de Verão do SESC 1985

      Já decorria um ano e meio e seu estava cansado. A oposição não me dava trégua e decidi que perderíamos a próxima eleição. Como, pelas regras que criamos eu não podia mais me candidatar à presidência, montamos uma chapa apenas para participar. Dito e feito. Perdemos as eleições, a nova administração fez algumas festas, nas olimpíadas do Sesi o resultado voltou a ser pífio e em seis meses o grêmio estava morto. Há muitas outras estórias nesse enredo e os colegas contemporâneos que lerem esse artigo irão se lembrar.

      Valeu por um curso. Foi um aprendizado intenso de administração, de administração de projetos, de administração de pessoal, de desenvolvimento de talentos, de como conter a ansiedade, de não matar ninguém mesmo estando com vontade :), de política, enfim, não estudei mas aprendi muito, e do jeito que eu gosto. Aquele foi mais um tempo feliz da minha vida e em Ribeirão Preto.

domingo, 18 de outubro de 2015

Ribeirão Preto - O trabalho

      Como se diz aqui na Bahia, pense! Pense em algo que deu certo! Essa foi a minha passagem por Ribeirão Preto. Em Ribeirão nasceu o meu filho, a minha filha foi alfabetizada, minha esposa voltou a estudar, construí amizades excepcionais, montamos uma emissora de televisão, a atualizamos tecnicamente algumas vezes e lá comprei a minha primeira casa. Em Ribeirão cheguei técnico e saí gerente. Nada mal para uma carreira de apenas 12 anos de técnico em eletrônica com curso de nível médio. Foram oito anos intensos e incríveis.

Com os filhos em Ribeirão Preto

      Ainda em Campinas, concomitantemente com os dois primeiros anos como técnico de retransmissão e o primeiro como técnico de manutenção de TV, trabalhei em uma empresa que produzia transmissores e antenas para transmissão de sinais de TV, de onde herdei do meu primeiro pai profissional a obrigação de se fazer tudo com qualidade. Do meu segundo pai profissional ganhei a liberdade de criar o conceito de serviço bem feito, e que foi aperfeiçoado, e muito, graças a dois amigos que trabalhavam em uma equipe de instalação. A esses quatro amigos, já mortos, tenho muito a agradecer.

      Comecei como técnico e logo passei a conduzir a equipe, que para a época foi muito bem montada e se tornou eficiente e altamente qualificada. Era um tempo em que todos equipamentos eram importados, e a importação, além de ser um processo difícil, era muito cara, e isso nos obrigava a ser criativos. Os videotapes amassavam as fitas e essas eram reaproveitadas eliminando-se a parte ruim. Era um trabalho manual e lento. Criamos, com madeira e peças usadas, uma máquina simples para rebobinar as fitas e o trabalho ficou eficiente. As baterias de câmeras e VTs tinham vida útil muito baixa, criamos um equipamento que analisava cada célula das baterias, assim reuníamos as melhores células, montávamos novas baterias e dávamos uma sobrevida a cerca de 60% delas. Havia 8 VTs e apenas 2 equipamentos para a estabilização de imagens que eram muito caros, os Time Base Correctors (TBCs) em cuja entrada os sinais dos VTs eram comutados, no entanto eram sub utilizados, pois a comutação não contemplava a radiofrequência para a correção dos sinais  quando o defeito era causado por amassados ou perda de óxido das fitas. Criamos dois equipamentos que associados às matrizes que comutavam o sinal de entrada comutavam também a radiofrequência e disponibilizamos esse recurso.

      A inventividade sempre foi nosso forte. O primeiro prêmio de jornalismo de relevância  nacional que a a empresa ganhou era sobre a piracema no rio Mogi Guaçu e que mostrava imagens subaquáticas. Não dispúnhamos de equipamento para isso e nós desenvolvemos uma caixa blindada na qual enfiávamos uma câmera grande e extraíamos o seu sinal. A dificuldade foi fazê-la afundar e torná-la manobrável. Fizemos dezenas de testes com esse aparato na caixa d’água da empresa antes de disponibilizá-lo para a operação.

      A transmissão dos evento era um capítulo à parte. Desmontávamos metade da emissora, enfiávamos tudo dentro de uma Kombi, viajávamos para o local da transmissão e fazíamos a instalação. Dava muito trabalho, cansaço e estresse pois a possibilidade de algo dar errado era muito grande. Surgiu então a necessidade de se construir uma unidade móvel e a empresa apostou na nossa capacidade. Comprou um furgão e, a nosso pedido, ferramentas de serralheria e fizemos a integração do carro para transmissão dos eventos. Era uma estrutura fixa, com o cabeamento já posicionado, os locais dos equipamentos já determinados, criamos multicabos e disponibilizamos energia para os equipamentos e comunicação para os operadores. Mesmo assim tínhamos que desmontar metade da emissora, mas os instalávamos no carro ainda na emissora, os testávamos e chegávamos ao local do evento com a instalação praticamente pronta. A estreia foi em uma corrida de rua em Campinas e foi um sucesso. Entre um evento e outro o carro era utilizado para o transporte de equipamentos pesados de iluminação para as gravações externas de comerciais.

      Essas foram apenas algumas das muitas as vitórias técnicas, porém a principal foi o amadurecimento. Eu não tinha visão clara de carreira profissional, mas percebia que não haveria muita competição e tudo foi dando certo e eu me tornando arrogante. Eu “protegia os meus” e atirava em todas as direções com empáfia e com força desnecessária, mas tive tempo de me recuperar. Eu dispendia muita energia para sempre estar alerta, pois da mesma maneira que disparava eu levava chumbo. Aos poucos fui percebendo a minha ignorância, curando feridas e remendando situações. Finalmente compreendi que o importante não é “causar” quando se chega, mas o que de bom foi construído antes de sair. Assim me sinto feliz sabendo que lá deixei um bom legado e amigos melhores ainda. É um daqueles lugares em que posso sempre retornar e ser bem recebido. Faço, portanto, a minha homenagem a todos que trabalharam comigo, me suportaram nos dois sentidos: me ajudaram e aguentaram a minha bizarrice, pois em todas as coisas boas que foram criadas eles fizeram a maior parte. Muito obrigado amigos.

domingo, 14 de setembro de 2014

Eu Sei Que Vou Chorar

      Tenho um sentimento muito forte de pertencimento. Eu não possuo, eu pertenço. Pertenço às coisas, pertenço aos lugares, e, principalmente, pertenço às pessoas.

      Meu primeiro e significativo ponto de inflexão foi fácil. Saí, ainda adolescente, rebelde e arrogante da minha cidade natal, com seus 45 mil habitantes para estagiar em uma grande empresa em São Paulo. Deixava a família, era um jovem assustado mas destemido e desejoso de mudar uma estória de privações. Após alguns meses e já iniciando uma carreira de muito trabalho, liderança, viagens e hotéis me fixei em Campinas, uma cidade de 600 mil habitantes e onde já moravam o meu irmão, um técnico em ascensão profissional e a minha, então namorada e até hoje, esposa. Foi uma felicidade só.

      Quatro anos depois, com uma carreira profissional sendo encaminhada, casado e com uma filha, fizemos a mudança para Ribeirão Preto. A transição levou cerca de 3 meses, e como se repetiria, fui primeiro para trabalhar, mas retornando para casa aos finais de semana até que a mudança definitiva se efetivasse. Com grande senso de responsabilidade e profissionalmente progredindo senti a primeira perda. Fui de uma cidade muito maior para uma pior que tinha a metade da população de Campinas, além de ser suja, quente, empoeirada e fedida. Ribeirão fedia a plantação de cana e sofria com as populações migratórias de andorinhas. A praça central era imunda e cheia de fezes das aves que faziam uma bela revoada, mas emporcalhavam a cidade e a tornava mais fedida. Mesmo sem revelar a insegurança, fui entristecido. Deixava para trás um forte ambiente no qual me sentia totalmente inserido.

      Mas também deu certo. Depois de 8 anos, já com um filho, casa própria e exercendo cargo de liderança nos mudamos para Varginha. Novamente saia de uma cidade com cerca de 400 mil habitantes, rica, crescendo e da qual eu já conhecia os lugares bonitos para outra que contava os seus 80 mil habitantes. Longe, feia e com péssimas estradas. Comecei a trabalhar e a frequentar a cidade em fevereiro de 1988 e a mudança se concretizou em agosto. Me recordo como se fosse hoje, quando a transportadora carregou a nossa mudança, eu, sozinho, dei uma volta no anel viário de Ribeirão e chorei. Chorei de saudade daquilo que eu deixaria para trás.

      Também deu certo. Em Varginha por apenas dois anos e meio a família não cresceu, não comprei casa, mas avancei profissionalmente, pois já liderava um departamento e não apenas uma área. Novamente nos mudamos. Para exercer a mesma função porém em uma cidade maior, São Carlos, que então estava com 170 mil habitantes, o meu sentimento era de ganho e praticamente não teve transição. Em dezembro de 1990  tomamos a decisão, em 2 de janeiro comecei a trabalhar e no dia 23 do próprio mês já estávamos na nova casa. Porém a mesma situação se repetiu. No último dia em Varginha, novamente sozinho, ao dar uma volta no entorno da cidade, chorei. Chorei pelo que construí e pelos amigos que estava deixando.

      Foram 23 anos em São Carlos, onde meus filhos estudaram e cresceram, a Nega e eu também estudamos, crescemos e fincamos raízes. Profissionalmente estabilizado e muito satisfeito iniciei nova negociação que durou cerca de 5 meses, e com outros 5 meses de transição me encontro em nova mudança. A partir de amanhã meu endereço passa a ser na Bahia. Estou trabalhando em Salvador e iremos residir na vizinha Lauro de Freitas. Salvador é imensa, com mais de 3 milhões de habitantes e com a pobreza e a riqueza convivendo lado a lado. Lauro de Freitas, muito menor, parte da região metropolitana e caminho da chamada Linha Verde que liga a capital ao litoral norte é movimentada e feia, mas o oceano conserta tudo.

      Além do que construí em São Carlos não estarei deixando apenas o maior período que vivi em uma só cidade, mas também a minha filha, que aqui continuará residindo para seguir a sua própria vida. Tive muitos motivos para fazer essa escolha, e como tudo que ocorreu até agora, acredito que, assim como fui muito feliz aqui, também serei lá. Trabalho e desafios não me faltarão, mas como bem sei, “no pain, no gain”.

      Há duas semanas, quando voltava a São Carlos para ver a família bateram em meu carro, assim, hoje, não conseguirei dar uma volta na cidade e ainda sairei por um caminho inesperado, através do aeroporto de Araraquara. Caminho que muitas vezes fiz e refiz de bicicleta. Caminho que conheço bem, onde fiz muita força tentando superar meus limites e o de hoje será o maior esforço de todos, o de conter o choro, pois sei que irei chorar, aliás, já estou chorando.