quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Exagerado.

      Exagerado, talvez esse seja um termo que me define bem, pois possuo a chatice dos virginianos e, como diriam os mais polidos, a intensidade dos escorpianos, característica que descrevo mesmo como exagerado. Mesmo em minhas relações sociais, pessoais e profissionais não há meio termo, se gosto, gostar é pouco, eu amo, se não gosto, desgostar é muito pouco, eu odeio. Quando resolvi estudar matemática eu poderia ter me contentado com a licenciatura, mas para mim não bastava, fui fazer o bacharelado, onde já se viu, eu? Na licenciatura? Isso é pouco para mim! Pois sim, quase entrei pelo cano. Estive a um passo da desistência, decisão que cheguei a tomar, mas voltei atrás graças à Adriana, que foi um anjo salvador, além de me fazer mudar de ideia, me ensinou, e assim consegui concluir. Exemplos como esse transbordam em minha vida, e hoje não foi diferente.

      Faz um ano que comecei a pedalar, saí do zero, comprando uma boa mountain bike e me preparando para o caminho da fé, aliás, o que fiz bem, mas só trilhas, é pouco, é social demais, grupos, passeios, fotografias, não me bastava, comprei uma speed que é para treinar sozinho, correndo, se possível voando. Comecei a andar relativamente bem, mas não basta, troquei várias peças para obter melhor rendimento e estou conseguindo, mas tempo com a bunda no selim e pés nos pedais também conta muito, por isso eu estava angustiado, queria ir até Rio Claro, são cerca de 120km contando a ida e a volta e isso ainda é inatingível para mim, decidi ir até o trevo de Corumbataí que é no mesmo caminho, isso implica em descer a Serra dos Padres e subir de volta. Medi a distância no Google Earth, 80km, um bom percurso. Mentalizei o caminho, que já percorri de carro muitas vezes e senti, na barriga, a ansiedade. Pronto, era o que faltava. Seria hoje, pois aqui é feriado, aniversário da cidade.

      Levantei às 5:15h, comi um lanche de pão integral com queijo branco e peito de peru e tomei um copo de suco de uva. Preparei mais dois lanches iguais a esse para levar, 2 caixinhas de 250ml de suco de laranja ligth, um pacotinho de biscoito Club Social e uma alfarroba de banana, coloquei tudo na mochila chamada Kamel Back, uma garrafinha de água, e depois de barbear-me e tomar banho, às 6:10h lá estava eu na rua começando a pedalar.

      Me surpreendi, após 1:26h e 41,350k eu já estava fazendo o contorno no trevo de Corumbataí. Em uma hora eu havia percorrido 28km, uma boa média, haja vista que eu não estava forçando, pois teria que voltar, e assim, a maior velocidade atingida foi cerca de 60km/h. Resolvi parar para comer apenas após subir a serra, que em 4km tem uma elevação de pouco mais de 200m, e lá estou eu a 11kkm/h quando olho para trás, e a cerca de 4m vejo um rapaz de menos de 20 anos, todo paramentado, com luvas, capacete, óculos, Jersey, como dizem os americanos, sapatilhas, pedalando forte e que passou por mim muito rapidamente. Invejoso e competitivo resolvi acelerar prá não vender barato a ultrapassagem, mudei rapidamente a velocidade para 16 km/h mas o infeliz ficou em pé e se distanciou mais e mais. Desisti, afinal, aquele magricelo, pois devia pesar menos de 50kg, só podia ser da equipe de competição de ciclismo de Rio Claro e esse não é o meu nível, confesso, a contra-gosto. Prossegui em meu ritmo lento e ele sumiu das minhas vistas no trecho sinuoso. Alguns minutos depois, já depois do topo, há uma mureta de concreto e o vi sentado lá. Resolvi parar para conversar e comer o lanche.

      Fui chegando e prestando atenção no rapaz, ele era mais novo do que eu pensava e também mais magro, ele não era muito claro, e como se dizia ainda nos tempos em que não precisava ser politicamente correto, passou das 6 é boa noite, e ele beirava as 6 e meia, mas estava meio desbotado. Tudo bem? Perguntei. Ele apenas assentiu com a cabeça. Você está vindo de onde? De Rio Claro, foi a resposta, curta e seca. Você faz parte da equipe de ciclismo de lá? Novo aceno positivo com a cabeça. Você está se sentindo bem? Não, foi a resposta, estou com ânsia. Estava justificada a sua palidez. Ele trazia somente água e tinha tomado um pouco. Continuamos a conversar e ele tem 15 anos, treina com os profissionais, tinha percorrido apenas 22km e eu 45, ele faz aquele trajeto diversas vezes por mês, inclusive subir aquela serra por 8 vezes seguida faz parte do treinamento, e a velocidade dele naquela subida é de 18km/h. Fiquei tomando conta do equipamento enquanto ele foi vomitar no mato, depois continuamos a conversar e reparti o meu lanche, o suco e a bolacha, só guardei a alfarroba para comer mais tarde. Como ele já havia se recuperado, pedalamos 1,5 km juntos até um retorno e ele voltou para Rio Claro e eu vim embora.

      Acho que o vento nasce em São Carlos e se espalha em todas as direções, pois sempre pego vento contra quando estou voltando, não importa para que lado eu tenha ido, e dessa vez não foi diferente, e isso prejudica muito, pois ao voltar estou mais cansado. A velocidade média caiu, o que é natural, pois no trajeto de volta predomina a subida, e quando eu estava perto dos 75 km o pneu furou. Fazer o que? Parar e consertar. Fiz um serviço de porco, pois ficou um caroço, mas como já estava perto e eu não tinha força para correr, decidi continuar devagar. Cheguei em casa após 3:22h e 82,750km.

      Na próxima vez não precisarei levar tanto peso, mas nessa o exagero foi bom, pois ajudei a um colega de pedal.

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