Não foi por
causa do santo que chamei de Santo Antônio e depois fui informado que era São
Francisco, e muito menos pela qualidade do trabalho, mas já senti esse impulso
algumas vezes. Não sou indeciso e tomar decisões faz parte do meu dia-a-dia,
mas às vezes, não sei bem o por quê, fico adiando alguma coisa. Vejo, revejo e
não faço nada até que em dado momento algo acontece e dou sequência. Por outro
lado, também não sei por qual motivo, tomei uma atitude por puro impulso como
já o fiz em outras ocasiões.
Eu já o
tinha visto há alguns meses e ontem, com tempo escasso, o vi em uma esquina da
Carlos Botelho, fiquei mirando-o, mas segui meu caminho. Hoje levantei-me cedo
e fui a academia. Ao terminar a minha sessão voltei à minha casa porque eu
havia esquecido o monitor cardíaco e eu precisava dele para ir a academia do
clube onde pedalei numa bicicleta de spinning e corri na esteira. Na saída fiz
o meu recadastramento e estava voltando para casa quando resolvi mudar de direção e
ir até a loja de bicicletas. Virei na Quinze de novembro e o encontrei em uma
esquina. Lá estava um humilde senhor, artesão vendendo estátuas de santos
feitas em madeiras.
Voltei,
olhei as estátuas e resolvi comprar uma, mas eu estava sem carteira, sem
dinheiro e nem tinha como carregá-la na bicicleta. Conversei com ele, que me
disse que talvez ficasse até amanhã se ainda tivesse estátua para vender e ele
me fez uma proposta pois estava sem dinheiro. Abaixou o preço, ofereceu para
dividir o valor em duas vezes e ainda queria trazê-la a em minha casa. Aceitei
apenas o desconto e falei que eu poderia voltar em uma hora e meia. Mas ele
ficou preocupado, pois a estátua que escolhi era a última e poderia aparecer
alguém para comprá-la. Aqui se deu o impasse e o principal dessa narrativa, o
valor da palavra dada.
Minha
preocupação não foi com relação à estátua pois nem sei o por que de estar
comprando, mas principalmente com relação ao senhor. E se eu não
aparecesse e ele perdesse a venda? Eu disse a ele: voltarei em meia hora com o
dinheiro e levarei a estátua. Deixei de ir à loja de bicicletas e voltei para
casa, tomei banho, saí de carro, passei no banco e voltei àquela esquina onde
ele me esperava. Comprei a estátua e queria tirar uma foto dele, mas esqueci o
telefone em casa, então fiz algumas perguntas. Ele tem 70 anos completados no
dia 18 de novembro, se chama Sebastião. Faz estátuas há muito tempo e sobrevive
disso. Mora no sul de Minas e vem para cá conforme sua palavra em 3: ele, o
amigo, que também é artesão mas irá parar pois está com artrite que dificulta
os movimentos e Deus. Eles se utilizam um caminhãozinho no qual dormem no
estacionamento de um posto de gasolina na Washington Luiz e gasta uns 8 dias
para fazer uma estátua como essa. De corpo franzino e todo marcado por uma vida
sofrida, tem as mãos completamente calejadas e uma firmeza de caráter.
São Francisco
Repetidamente
me agradeceu por não tê-lo enganado. Por ter, segundo ele, honrado com a
palavra, pois segundo o que disse, ele é do tempo em que a honra estava no fio
do bigode e a palavra dada valia mais do que qualquer contrato.
Lembrei-me
imediatamente do período em que eu alugava casa para morar e ficava irritado
com as cláusulas dos contratos, que tratavam a mim como um marginal sem caráter
que deveria viver sob ameaças constantes para não atrasar os pagamentos. Já me
passou a ideia de estudar direito para ter uma atividade autônoma quando me
aposentar, mas há alguns dias precisei ler um contrato para a compra de uma
atualização de software. Fiquei estupefato. Eram 14 páginas que me colocavam em
cheque. Eu deveria pagar, receber, instalar e tudo de errado que pudesse ocorrer teria sido eu o culpado e deveria responder por isso. Não quero mais ser advogado, mas
vou continuar honrando a minha palavra.

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