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sábado, 23 de julho de 2011

Coletânea.

      Empregados domésticos – já escrevi sobre o tema, mas agora vem uma notícia que me pareceu inteligente. O Ministério do Trabalho está criando um projeto que está sendo chamado de “O Simples das Domésticas”. Será um valor único que agregará os pagamentos do INSS e do FGTS, além de reduzira alíquota total, simplificará a forma de pagamento. Esse é um bom passo no sentido de garantir mais direitos a essa categoria e facilitar a vida dos patrões e como efeito colateral, aumentar a formalidade. Até que enfim algo para se elogiar.
      Corrupção – há semanas estamos vendo todos os dias denúncias de corrupção envolvendo funcionários do Ministério dos Transportes e do DNIT. Nesses dias o governo está fazendo uma verdadeira faxina, com cerca de 15 diretores e funcionários demitidos. A revista época dessa semana começou a circular trazendo denúncias de corrupção na Agência Nacional do Petróleo (ANP) já rotulada de Agência Nacional da Propina. E quando será a vez do Ministério da Saúde?

      Descrença  – Confesso que nunca fui muito fã da Lya Luft, embora reconheça a sua capacidade, a sua intelectualidade e a qualidade dos seus artigos, e de até mesmo, por algumas vezes tê-los citados em conversas, há na maioria deles um tom que não consigo descrever, mas que não me agrada. Há poucos dias, por exemplo, havia uma frase “...estou me lixando para os leitores...” embora aqui eu a tenha pinçado sem explicar o contexto, me sentiria em conflito se tivesse que dizer algo semelhante, mas o que me chamou atenção foi um artigo que não li, mas do qual vi apenas a chamada onde ela mostra de maneira elegante que ela está tão sem esperança de que possamos ter um mundo melhor que é melhor esperar pela morte.

      Também nesse sentido, li nessa semana um texto do Luis Fernando Veríssimo, sim esse é dele mesmo, não aqueles que apenas lhe são atribuídos, no qual ele começa dizendo que com tantas denúncias de corrupção e comportamento errôneo das nossas autoridades, o único consolo é que daqui a 6 bilhões de anos quando o sol explodir e formos levados de roldão, nada disso terá mais importância.

      São sintomáticos esses dois casos, pois dois ativos intelectuais brasileiros estão abrindo mão da capacidade de se indignar com os atuais desmandos e isso não é bom. Isso indica que estamos no caminho errado.

      Itaquerão – Também já escrevi sobre isso, mas nessa semana foi apresentado a dimensão inicial do descalabro. O governo colocará 50 milhões de reais na construção do Itaquerão, dará outros 420 milhões em isenção de impostos e outros 450 milhões serão emprestados pelo BNDES a juros subsidiados e cujo recebimento é duvidoso, pois os clubes brasileiros de futebol estão entre os maiores devedores para o próprio governo. Se os investimento fossem em transporte, hospitais, escolas e para suprir tantas outras necessidades da carente população, eu não teria nada a criticar, mas para fazer estádio de futebol? Nesse balaio estão o PT, através do governo federal, o PSDB, com o governo estadual e a prefeitura de São Paulo cujo prefeito está num vácuo político, pois deixou o DEM e está criando o seu próprio partido, saindo da oposição e pulando para o barco da chamada “base aliada”.

      Última hora – Veio a pouco a notícia da morte da cantora inglesa Amy Winehouse. Não conheço a sua obra, não conheço as suas músicas e nem sei dizer se ela tinha talento. Mas sei que ela criou um tipo estranho, desses para chamar a atenção da mídia e também ouvi várias notícias sobre seus escândalos e envolvimento com bebidas e drogas. Ser encontrada morta aos 27 anos me parece ser um fim natural.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Acidente 2.

      Ontem ao chegar de viagem duas pessoas me falaram sobre o acidente que vitimou um médico dermatologista e ciclista de Araraquara na descida do Chibarro, local por onde já passei por diversas vezes e pretendo passar por outras tantas mais. Ao ler a notícia em um site local vi também alguns comentários, sendo uns completos absurdos.

      Não que a pessoa se torne santa quando morre, mas, pelas informações dadas até aquele momento, os ignorantes que escreviam não o conheciam, logo não podiam julgá-lo, além do que, no mínimo devem respeito aos familiares. Outros equívocos se deram sobre as circunstâncias do acidente, por exemplo. Pelo horário do ocorrido, alguns o caracterizavam como alguém que utilizava a bicicleta como meio de transporte, o que é errado, a bicicleta envolvida era uma Pinarello, e quem conhece sabe, essa marca é considerada a Ferrari das biciletas, portanto ele era um esportista já com alguma experiência. Some-se também o fato de que, quem pedala naquela região está buscando resultado, pois os aclives são fortes.

      Outros disseram que naquele ponto o acostamento da Washington Luiz é bom, então qual seria o motivo dele ter entrado na pista? O pneu da bicicleta do modelo speed tem uma pequena área de contato, justamente para reduzir o atrito e ganhar mais velocidade, e naquele local, onde a velocidade final pode passar de 70km/h, um pedaço de cana jogado no acostamento pode derrubar o ciclista, e a reação imediata é desviar. E pedaço de cana é o que não falta naquela região. Quem utiliza esse tipo de bicicleta também sabe que a camada de borracha desse tipo de pneu é muito fina para que ele se torne leve, aliada a alta pressão, entre 100 e 120 libras, um simples fiapo de cabo de aço de poucos décimos de milímetro de espessura, desses que são encontrados em abundância nos acostamentos das rodovias, pois soltam-se dos pneus de caminhões, é suficiente para furar o pneu da bicicleta. Isso já me aconteceu diversas vezes, logo, quando vejo esse tipo de cabo de aço trato logo de desviar. Assim, não basta que o acostamento seja regularmente pavimentado, deve também estar limpo, inclusive de graxas, óleos e barro que infestam as laterais das pistas.

      Viajando pelas rodovias paulistas é comum ver ciclistas individuais ou em grupos pedalando pelos acostamentos, ontem mesmo, na Anhanguera, vi um pelotão com cerca de 10 ciclistas e também várias duplas. O que ocorre é que as nossas cidades não oferecem alternativas seguras para quem pratica esse esporte e as nossas autoridades não conhecem o problema e imagino que nem querem conhecer, pois, conhecendo, têm que tomar alguma atitude, que passa a ser um problema a mais a ser resolvido. É mais fácil considerar essa morte como uma fatal vítima de atropelamento no trânsito, que entra na estatística, mas não há nada a ser feito. Em outros países a mobilidade urbana e o transporte não poluente são considerados estratégicos, mas não aqui. Na Holanda há estacionamentos gigantescos para bicicletas, muitas faixas exclusivas e espaços para essas dentro dos trens.





      Em São Francisco, na Califórnia, há espaço nos barcos e ciclofaixas em muitas vias consideradas artérias, onde não há, os ciclistas andam pelas estradas, mas há sinalização alertando.





      Em Houston, no Texas, além de ciclovias em várias avenidas, há também sinalização avisando que bicicleta é veículo.

                                    
                                    
      Aqui, como o descaso é geral, nada vai mudar, a não ser que se veja aí uma boa oportunidade para sobrefaturar as obras e aumentar o próprio patrimônio em dezenas de vezes em curto espaço de tempo.

sábado, 17 de julho de 2010

A Última Aula

      Foi a última aula porque ocorreu ontem, não porque não haverá outras. Ontem o ex-diretor veio despedir-se de nós que trabalhamos com ele e, evidentemente, almoçamos juntos. Foram cerca de 3 horas em que mais ouvi do que falei, o que é muito difícil de ocorrer, pois às vezes me considero um bom falante e péssimo ouvinte. Ouvi atentamente o relato de várias situações e de todas as suas razões para desligar-se da empresa que ele considera excelente, e que é também aquela em que ele trabalhou por mais tempo, mas com tal clareza não posso deixar de lhe dar razão.

      Trabalhar é bom, e para muitos como eu, é também necessário, mas há várias maneiras de se trabalhar, pode-se fazer o que se pede, fazer o que precisa ser feito ou fazê-lo porque se gosta. Isso pode ser um fardo ou um prazer que depende de vários fatores. Já fiz a seguinte pergunta a várias pessoas: o que mantém uma pessoa na mesma empresa por muito tempo? Invariavelmente as respostas passam por competência e honestidade. Meio certo! E como dizia um professor que tive, um teorema meio certo é totalmente errado. Honestidade não é uma qualidade que se deseja, ser honesto é obrigação, e competência que é sim desejável, nem sempre é o fator decisivo, pois sempre que se trabalha em grupo, um supre a dificuldade do outro, e se o menos habilidoso é uma pessoa boa, daquelas que todo mundo gosta, ele vai ficando, fazendo as suas tarefas que com o tempo se aprende de tanto repetir e vai levando a vida... Para mim só permanece por muito tempo aquele que assimila a cultura da empresa, sim, pois embora haja alguns padrões de funcionamento, cada empresa tem a sua própria identidade, e decifrá-la é imperioso para quem quer se manter, digamos, estável. É claro que ao longo do tempo ocorrem desgastes, mas o adaptado se sente bem, já aqueles que não se identificaram com a empresa ou sairão logo ou serão os eternos descontentes.

      É doentio ficar brigando com tudo, com todos e com o mundo, já, fazer o que se gosta é saudável, principalmente na vida profissional que é o longo período em que a pessoa é mais produtiva, e o local de trabalho costuma ser aquele onde mais tempo se passa e também onde os maiores relacionamento se desenvolvem. Porém quando se é empregado nem sempre é possível fazer somente o que se gosta, há sempre alguns processos, ritos e formalismos a serem cumpridos. O conhecimento aumentou, a tecnologia se desenvolveu e a riqueza cresceu, mas os tais processos são perpétuos e modificaram-se apenas para dar mais trabalho. Há 20 anos os assuntos profissionais eram tratados com ofícios e memorandos datilografados, os internos eram distribuídos manualmente e os externos enviados pelo correio, eu costumava emitir cerca de uns 250 a 300 por ano, ou seja, menos de um por dia. As ferramentas imediatas eram o telefone e o fax, que já havia sido a inovação, pois antes era o telex. Após a expansão das comunicações e da internet com os seus e-mails, com o telefone celular e com as planilhas de cálculo, o imediatismo aumentou e a quantidade de informação ganhou a estratosfera. Fico constantemente conectado, recebo e manipulo pelo menos umas 40 mensagens pertinentes ao dia, fora o monte de lixo, muitos dos quais apago sem ler, e sempre tenho uma tabela para analisar. As ferramentas são boas? Sim, mas a exigência é grande e administrá-la toma mais tempo do que, no meu caso, fazer engenharia.

      Além disso somos governados por uma legislação trabalhista arcaica. Muitas vezes vemos reportagens de trabalho escravo no campo ou sem condições de segurança na cidade, onde e a lei é necessária, mas não necessariamente cumprida. Já nas corporações mais sofisticadas onde o nível mínimo de educação exigido é o chamado segundo grau e onde predominam os funcionários que possuem cursos de graduação, essa tutela é totalmente desnecessária e inaceitável. Apesar da tecnologia possibilitar, os processos não se modificam porque a lei não permite e os sindicatos não participam para o avanço, mas influenciam apenas para continuar arrecadando e gerando um punhado de políticos retrógradas, corruptos e interessados em aparelhar o estado e perpetuar-se na mamata. Dessa maneira temos que continuar engessados em bancos de horas, horas extras, documentos inúteis e produtividade baixa. Por que isso não pode ser diferente? Não seria possível ser remunerado pela função e poder escolher como, onde, quando trabalhar e produzindo o que se espera? Essa não é uma relação mais justa e digna de duas partes mais esclarecidas e comprometidas?

      Pois é, quantas pessoas têm capacidade para perceber isso e mesmo precisando trabalhar têm a coragem de dizer: para mim isso basta. Quero qualidade de vida, vou fazer ciência e viver do meu conhecimento. Essa foi a minha última aula.