segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Retrógrada


      Se você está lendo esse artigo é porque tem acesso à internet. Acesso esse que se popularizou nos últimos vinte anos e hoje ninguém que já o tenha experimentado quer, ou pode, dispender dele. Junto com essa rede vários negócios foram criados e outros modificados, e mais do que isso, foi criada uma cultura de conectados.

      Já me disseram que a internet aproxima os distantes e distancia os próximos e disso sou testemunha. Tenho feito amigos de diversas partes do mundo e me comunicado com amigos de tempos atrás, ao mesmo tempo em que nos sofás da sala de casa cada um de nós está com seu dispositivo conectado a uma rede sem fio fazendo a mesma coisa e, absurdamente, já nos falamos via computador estando a alguns metros uns dos outros ...  e vendo-nos.

      Nunca gostei de ler jornal e costumava me informar através de revistas e telejornais. Hoje continuo com as revistas, com os telejornais e, principalmente, verificando os sites de notícias. Não costumo utilizar as notícias instantâneas porque isso escraviza. Não posso ficar à mercê de um bombardeio de informações, a maioria inútil. Por isso escolho o que quero ler e no horário que considero ser o melhor.

      Ao mesmo tempo em que simplifica alguns serviços, por exemplo, compras e transações bancárias via rede, ela trás o risco para dentro das nossas casas. Desde fraudes em cartões de créditos, compras em sites fantasmas que recebem o dinheiro mas não entregam a mercadoria, e na disseminação de informações que facilitam roubos, furtos e até sequestros, sem falar na tão discutida e propagada pedofilia. 

      Nas diversas redes sociais as pessoas passaram a se expor mais. Nos sites de relacionamento alguns conhecidos impopulares têm centenas de amigos que gostam e comentam ações simples, cotidianas. Com a multifuncionalidade dos telefones celulares é comum ver fotos ou filmes segundos após terem sido feitos e terem sido disponibilizados, mesmo que o autor estivesse o tempo todo ao volante.
Não há dúvida que esse é um mundo novo no qual as crianças, cujas famílias têm acesso, já nascem conectadas, e até o ultrasom feito com poucas semanas de gestação é exposto e comemorado.

      Ainda que eu entenda um pouco de tecnologia, seja um usuário assíduo e mesmo que possa receber rótulos diversos, devo confessar: há coisas das quais não abro mão. Por exemplo, um texto elegante, que possua a gramática correta e que seja preciso. Não suporto ver notícias pela metade, com descrição pobre e coalhada de erros de português. Pior ainda são aquelas que se travestem de notícias para tratar de futilidades, e como tudo pode piorar, há ainda a sessão de comentários. Aqui os absurdos acontecem. Escondidos pelo pseudo anonimato e por pseudônimos ridículos alguns consideram a internet como sendo terra de ninguém. Perdem a razão nas primeiras palavras e por não serem consistentes atacam. Atacam para não serem atacados, mas o são assim mesmo. Essas pessoas não entendem que a internet é apenas um meio e não um fim em si, e na qual a civilidade, a educação e o respeito devem ser mantidos. Essa deve ser uma ferramenta para elevar o nosso nível cultural e não para rebaixá-lo.

      Há tempos li uma crônica – desabafo feita pelo escritor e repórter da Globo News Geneton Moraes Neto. Ele se sentiu caluniado pelo autor de um blog e ao invés de entrar na briga através da rede, provocou uma representação judicial e levou o caso até o julgamento. Na ação, que foi por ele ganha, não solicitou ressarcimento financeiro, mas apenas a condenação e a retratação, que foram feitas. 

      Posso ser retrógrada, mas sou otimista: nem tudo está perdido.

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