domingo, 23 de outubro de 2011

A VIVO e Eu.

      Mudei-me para São Carlos em janeiro de 1.991 e tive que alugar um telefone, pois quem é novo não se recorda, mas naquele tempo o serviço de telefonia fixa era estatal, em São Paulo feito pela Telesp, e o serviço não atingia a todos. Dessa maneira, telefone era um bem passível de ser declarado no imposto de renda, e alguns investidores tinham tantas linhas que sua administração era feita por imobiliárias. No mercado informal o custo corrente de uma linha era de cinco mil dólares e o aluguel mensal girava em torno de meio salário mínimo, não estou considerando a tarifa pelo uso do serviço. E não adiantava querer comprar uma linha diretamente da concessionária, pois não havia. Era necessário se cadastrar em um plano de expansão que demorava vários anos para ocorrer e o pagamento era feito em, no mínimo, 12 parcelas. Telefone celular então ainda não existia, e esse serviço passou a ser oferecido por volta de 1.993 pela então chamada Telesp Celular. No primeiro semestre de 1.984 comprei nos Estados Unidos meu primeiro aparelho que era, claro, o famoso PT 100, da Motorola. Esse tinha a dimensão de meio tijolo, pesava mais de meio quilo e a bateria não durava mais que duas horas, e o pior, não havia linha disponível. Aguardei pelo segundo plano de expansão e no dia de seu início fui até Araraquara para habilitar o aparelho, pois foram disponibilizadas apenas 700 linhas para São Carlos que se somaram às 700 habilitadas no ano anterior.

      A Telesp foi privatizada, sendo comprada pela Telefonica e o custo de uma linha fixa gira em torno de cem reais e a compra pode ser feita pela internet, que naquele tempo também não existia. A telefonia móvel da Telesp foi vendida para a Vivo e como sou um típico consumidor burro, continuei fiel à marca e mantive o mesmo número. E devo confessar, as empresas adoram idiotas como eu, mesmo que a minha conta não seja elevada, a receita é certa e constante. Como utilizo pouco o telefone, pago pela disponibilidade, e a Vivo é a companhia que me dava maior área de cobertura, e acredito que até hoje ainda seja assim, e como não havia ainda a lei da portabilidade, eu não queria perder o meu número. Além disso, há apenas uns 3 anos eu tive um único e pequeno problema, passaram a tarifar alguns trocados por pacote de SMS. Reclamei alguns meses depois e resolveram.

      Faz uns quatro anos que tenho smartphone sem ter contratado plano de dados, acesso apenas em rede wireless. No ano passado comprei um tablet e reduzi em muito o uso do smartphone, mas na conta telefônica de do mês passado, que pago com débito automático, veio debitado R$ 102,00 por dados excedentes. Demorei alguns dias mas fui à loja da Vivo me informar. A atendente buscou uma listagem no banco de dados de todos os meus supostos acessos, inclusive constava o dia 13 de agosto no qual pedalei das 5 da manhã às 5 e meia da tarde. Para mim estava mais do que caracterizado que a tarifação era indevida. Questionei-a a respeito mas ela se limitou a mostrar a evidência: a listagem. Eu disse então que eles são os donos do banco de dados e eles podem colocar o que quiserem. Polidamente, mas firme, ela me respondeu que a Vivo não precisa disso. No mesmo tom retruquei: não precisa mas está fazendo. De qualquer maneira não tive a minha demanda atendida, era necessário ligar para o um determinado número. Não o fiz de imediato e na conta desse mês veio o débito de R$ 318,00, mas com a greve dos correios não recebi a fatura e por isso demorei para reclamar, mas o fiz, e esse foi o calvário.

      Às 11:37h da quarta-feira fiz a ligação e fiquei esperando por 12 minutos sem ser atendido. Desliguei, liguei novamente e fiquei mais 15 minutos até ser atendido. Foi um procedimento burocrático longo e para resumir permaneci ao telefone até às 13:45 e não sei se resolvi o problema. Insisti que não solicitei o serviço, não o utilizei, exigi que o bloqueassem e me devolvessem o dinheiro. Autorizei que se fizesse em crédito nas contas futuras. Deixei claro para a atendente que, aliás, foi simpática, solícita e que aparentemente tentava a solução, que o meu problema era com a empresa e não pessoal.

      A minha reflexão a respeito é a seguinte: uma empresa que tem 20 milhões de assinantes e que quer fazer caixa pode proceder dessa maneira com apenas 10% de seus clientes distribuídos geograficamente. Se eles forem taxados em apenas R$ 200,00 cada um estamos falando de um montante de 400 milhões, que reclamados apenas no mês seguinte representa um empréstimo sem juros por um mês. Se apenas 50% exigirem o ressarcimento imediato em dinheiro, serão 200 milhões em caixa por mais um mês e sem o pagamento de juros. Essa é uma boa maneira de se administrar uma empresa. Capital de giro sem mexer no fluxo de caixa e financiado sem juros.

      Visto dessa forma vocês podem pensar que sou contra a privatização, mas não sou. As estatais são mais ineficientes e os custos que nos impõem são muito maiores, haja vista a situação inicial que descrevi, sem telefones e serviço ruim. Ou seja, o governo não é provedor e nem regulador, é incompetente.

      E para encerrar, me parece que o problema é sistêmico, pois em casa quando falei com a minha filha sobre o caso, ela, no mesmo dia, ficou tentando resolver a taxação de aproximadamente R$ 500,00 em débito em sua conta corrente pela operadora Claro que lhe taxava por 900 torpedos supostamente enviados no mês anterior.

      Se não tivermos as nossas demandas atendidas iremos reclamar formalmente junto a Anatel.

domingo, 16 de outubro de 2011

Animal Político.

      A política, como a conhecemos, nasceu na Grécia antiga e estava relacionada a todos os assuntos da Pólis (cidade estado). Os cidadãos defendiam os seus interesses perante os seus pares, ou seja negociavam, assim como negociamos desde o nascimento chorando para mamar. Como definiu Aristóteles, o homem é um animal político, e não é possível, dessa forma, imaginar que as recentes manifestações em diversas partes do mundo possam estar desprovidas de política.

      Em outubro de 1.929 uma sequente venda de ações derrubou os preços das ações da Bolsa de Nova Iorque resultando no que ficou conhecido como Crash, queimando a economia de milhões de investidores e trazendo conseqüências à economia mundial. Mas naquele tempo as crises locais demoravam para se espalhar, pois a economia viajava de navio, hoje se transporta quase que à velocidade da luz, e as distâncias são vencidas no tempo de um simples clique. Não é novidade que as economias sejam interligadas, os grandes impérios antigos já comercializavam intercontinentalmente. A diferença é que a escala hoje alcançada é sem precedentes, e além de bens de consumo, de produção, ou duráveis, há também os financeiros, esses voláteis e ariscos. Com o desenvolvimento da tecnologia, a informação e a comunicação passaram a ser imediatas e quase impossíveis de serem bloqueadas, ainda que os ditadores assim desejem.

      Devido a grande dimensão da economia americana o déficit financeiro de seu governo há muito põe em risco a economia mundial. Seu par em dimensão, a Europa, onde os governos de alguns países são lenientes com a austeridade fiscal, se envereda pelo mesmo caminho, assim, a bonança expansionista da economia terá uma retração e não haverá imunes, em maior ou menor escala todos sentirão, como já está sendo visto desde 2008 nos Estados Unidos, desde o ano passado está claramente identificado na Grécia e mais recentemente no bloco conhecido como PIG (porco em inglês) Portugal, Itália e a própria Grécia, além da Espanha, cujos bancos já tiveram as suas avaliações de riscos aumentadas.

      Por outro lado, desde o final do ano passado vemos no oriente médio e norte da África uma sucessão de revoltas populares contra governos ditatoriais que em alguns casos já os derrubaram como na Tunísia, Egito e Líbia, e há um número muito maior em andamento, movimentos que geraram o nome de Primavera Árabe, ainda que nem todos os países sejam Árabes.

      Já vimos no início do ano a revolta dos estudantes na Inglaterra, o quebra-quebra na França, novamente os estudantes no Chile, o movimento Ocupem Wall Street em Nova Iorque, o Ocupem a City em Londres, o movimento na Plaza Mayor em Madrid, ontem ocorreram as manifestações na Itália que terminaram em vandalismo e quebradeira e também há cerca de um mês temos visto os tímidos protestos contra a corrupção no Brasil.

      Há muita coisa comum em todos esses movimentos, a começar pela política que está na necessidade de ser ouvido, de ter, por cada um, os seus interesses defendidos. Tem também a economia. Ninguém reclama quando está abastado e sem ameaças, a economia em si embute o conceito de administrar a escassez, não a fartura. Há também a forma de comunicação que utiliza primordialmente a Internet como plataforma e as redes sociais como veículos para a mobilização e demonstração da sua força a fim de ganhar mais adeptos e engrossar as vozes.

      Cada um vê esses movimentos por sua própria ótica, para uns, a revolta contra a ditadura representa a superioridade da democracia, para outros a ocupação por populares do maior centro financeiro do globo significa a derrocada do capitalismo e há os que acreditam que a simultaneidade de todos os eventos é um cataclismo. Para mim o mundo não acabará em 2.012. Não sei dizer se os governos que sucederão os depostos serão melhores que os anteriores, até porque em 1.979 achei que nada seria pior para o Irã do que o Shah Reza Pahlev, mas veio o Khomeini e os seguidos governos teocráticos, e hoje temos lunáticos quase nuclearmente armados. Também não acredito em governos provedores de bem estar social, pois não é possível haver justiça se tudo é provido, haverá sempre os que merecem e nada recebem e os que nada produzem mas sempre se ajeitam. Assim acredito no governo regulador e na sociedade produtiva e recebedora de benefícios por mérito. Acredito ainda que o capitalismo não será extinto, será reformulado para a sua própria sobrevivência e a tecnologia que é um de seus produtos estará mais forte e presente a cada dia.

      Particularmente sou simpático às manifestações brasileiras, mas cético de seu alcance, pois somos capazes de brigar por um time de futebol, mas não de nos engajarmos em uma causa que demande exposição, disponibilidade e privação. No Brasil apenas o PT tem força de militância para fazer uma causa sair da inércia, mas como na essência a manifestação é contra o desgoverno do PT e seus aliados, não iremos a lugar algum. Eu, que sou muito orgulhoso, ficaria muito feliz por estar errado nesse último parágrafo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ah Meus Dentes!

      Tudo tem um preço e às vezes podemos escolher se vamos pagar antes, depois ou antes e depois. Ao contrário do meu filho que tem 28 anos, nenhuma cárie e nenhum dente obturado, eu, quando criança, por ignorância, desinformação, falta de recursos ou por tudo junto não cuidei bem dos meus dentes. Ainda adolescente, mas já quase adulto, negligenciei um tratamento ortodôntico e hoje estou pagando por isso.
Em 1976 antes de colocar o aparelho

       Até que o alinhamento dos meus dentes não era tão ruim aos 17 anos e os que necessitavam haviam sido tratados e obturados, mas por causa da mordida posterior esquerda cruzada inventei de colocar aparelho ortodôntico, e para se conseguir a movimentação necessária foram extraídos os dois pré-molares superiores, dentes bons jogados fora. Naquele tempo “bandava-se” com metal todos os dentes e na tal banda era soldado um “bracket” que suportava os fios que, por sua vez, eram presos por pinos. Esse arranjo machucava, descolava, dessoldava, entortava, era um horror. Durante o estágio como técnico em eletrônica ganhei do supervisor o apelido de “boca-de-ferro”.

      Acontece que eu trabalhava em Campinas e o ortodontista, que era meu tio, tinha consultório em São Paulo, então quando havia um problema eu mesmo me virava: cortava os fios com um alicate, retirava o que havia sido danificado, eliminava a causa da dor ou incômodo e só voltava ao consultório quando possível. Depois de umas três ou quatro vezes decidimos retirar todo o aparelho e esquecer o assunto. Não sei avaliar a falta que me fizeram os dois dentes retirados e nem os aspectos ruins da mordida cruzada, mas sobrevivi assim até o ano passado.
Em 1988 sem o aparelho metálico e com a falha pré-molar

      A minha filha, ainda adolescente, fez um tratamento que foi muito bem sucedido e os dentes ficaram lindos. Depois dela, a minha esposa também se submeteu ao procedimento, corrigiu as falhas e o resultado foi excelente, e aqui entrei na estória. Primeiro a minha esposa me convencendo a fazer o mesmo. Para pagar os meus pecados minha filha estudou odontologia e ajudou no patrulhamento. Minha dentista engrossou o coro dizendo que eu só teria a ganhar.

      Pronto, enchi-me de coragem e procurei por um ortodontista. O profissional competente me deu todas as razões que eu precisava e lá fui eu. Escolhi um modelo que me pareceu ser mais discreto e confesso, se não há nada de agradável nisso, até que não é o pior dos mundos, o problema é que, além de descruzar a mordida, o que não foi tão difícil, estão sendo abertos espaços para implantar os dois pré-molares arrancados. Além do que, a movimentação dos dentes vai, evidentemente, modificando a mordida, e não sei se foi por isso, um dente posterior começou a apresentar dor em algumas vezes. Foi feito o possível, selante, troca da restauração, verificação através de radiografia e a vida ia seguindo, até que uma lateral do mesmo se quebrou e em uma semana a minha vida virou um inferno.
Em 2010 com o aparelho hi tech

      Como era sábado a minha filha fez um acerto provisório e na segunda-feira procurei pela dentista que o radiografou, analisou, e o preparou para receber um bloco que levaria uma semana para ficar pronto, enquanto isso não seria possível cobrir adequadamente a região preparada, pois caso houvesse a adesão química, seria necessário lixar o local modificando a superfície e perdendo assim as características moldadas. Esse dente começou a doer, apareceram reflexos nos ouvidos, comecei a tomar analgésicos, a perder o sono, a comer mal e a ficar muito mais mal humorado do que normalmente sou. Resumindo: na sexta-feira seguinte iniciei um tratamento de canal. Além de ser um procedimento dolorido esse somente será finalizado na próxima semana, quando então será feita uma nova preparação para a instalação de um bloco.

      O tratamento dentário é muito invasivo, além do mais, aquelas ferramentas se parecem com instrumentos medievais de tortura. Têm pontas para todo lado que enroscam em todo canto, barulho que ressoa ensurdecedor dentro da cavidade bucal, é muita mão e muito equipamento para tão pouca boca. O período que passo na cadeira do dentista equivale a umas três aulas de exercícios abdominais, pois fico o tempo todo contraído. E as anestesias então? Não consigo definir se a agulha é inserida na boca ou no ouvido e se o líquido vai para o nervo ou para os olhos, mas sei que pulei um palmo acima da cadeira quando foi feito o teste de percussão no tal dente.

      E para completar esse périplo, no próximo mês deverei me submeter a um enxerto de tecido ósseo para preencher a perda de densidade por ter ficado tanto tempo sem os pré-molares, depois de uns oito meses será feito o implante, e depois de mais uns seis ou oito meses será concluído o tratamento. Nesse caso estou pagando depois, mas eu mereci!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Caminho Da Fé

      Sobre crença e fé falarei em outra oportunidade, aqui quero relatar a minha terceira viagem pelo Caminho Da Fé, de São Carlos a Aparecida, percurso de aproximadamente 540 km que percorremos de bicicleta em quatro e meio dias. Digo meio dia porque no último foram apenas três horas e doze minutos pedalando. Voltamos a São Carlos utilizando uma Van que trouxe também as bicicletas sem que fosse necessário desmontá-las.

      Em outubro do ano passado quando fizemos o planejamento das férias para 2011 previmos a coincidência de alguns dias para que o Rodrigo (35), o Alex (29) e eu (53) pudéssemos fazer o percurso em 5 dias e estabelecemos a data do início: 17 de setembro. Durante os primeiros 6 meses comecei a treinar mais assiduamente e com maior intensidade, e a partir de março comecei a frequentar uma academia duas vezes por semana e com um técnico para me orientar. Fiz exercícios para fortalecer as costas que são muito exigidas nas subidas, e para os ombros que doem quando os freios são muito utilizados em descidas fortes. Além disso, melhorei a técnica para pedalar e fiz exercícios de força para conseguir o equilíbrio muscular. Também, como faço todos os anos, continuei com as consultas com o cardiologista e fiz o exame ergométrico antes de viajar, e a conselho do médico busquei a ajuda de uma nutricionista ligada ao esporte que me orientou sobre a alimentação rotineira para período de treinamento e também com a suplementação alimentar para o percurso.

      Estudamos o trajeto que já conhecíamos verificando detalhadamente as distâncias e as altimetrias de cada trecho e assim planejamos a logística que incluía percorrer cerca de 150km no primeiro dia, e para testar, no dia 13 de agosto fomos até Vargem Grande do Sul, que seria o nosso primeiro ponto de repouso. Verificando que seria possível percorrer esse trajeto fizemos a divisão do que faltava e planejamos a redução de peso a ser transportado, já que não teríamos carro de apoio. Com a aproximação da data da partida a expectativa foi aumentando e o medo de não conseguir também.

      Deixei a minha casa às 4:10h da manhã do dia 17 e encontrei o Rodrigo, que estava meio resfriado e tinha quebrado um dente na noite anterior, ele estava meio abatido e com tendência a desistir. Pedalamos bem nesse primeiro dia, que apesar de longo não tem muita subida e chegamos por volta das 15:30h a Vargem Grande e ficamos no hotel Príncipe. O Rodrigo que tinha sentido dores na virilha não estava certo de continuar no dia seguinte, mas continuamos. No segundo dia, que era o meu aniversário, subimos forte logo cedo, por volta das 5:30h, a Serra da Fartura, depois descemos para Águas da Prata e subimos o Pico do Gavião, rumo a Andradas. Chegando a essa cidade seguimos um trecho pelo acostamento da pista asfaltada e na subida, por duas vezes fomos “fechados” e quase atropelado por um bêbado dirigindo um Fiat Uno com várias pessoas dentro que chamou o Rodrigo de “paceiro”. E ele apenas queria saber qual era a próxima cidade. Almoçamos em Andradas e subimos a Serra dos Limas, trecho difícil assim como também é difícil a descida para Barra, a próxima cidadezinha. Saindo de Barra tem uma elevação forte onde um Palio e um Gol 1000 não conseguiam subir, mas nós subimos a maior parte pedalando. Tocamos até Ouro Fino onde chegamos já anoitecendo.

      Saímos de Ouro Fino às 7h da manhã e o começo é tranquilo, a dificuldade começa perto de Borda da Mata e fica pior no caminho para Tocos do Mogi. Uma sucessão de subidas e descidas fortes que se estendem até Estiva, onde cruzamos a rodovia Fernão Dias e subimos a Serra do Caçador que também é muito difícil e chegamos a Consolação por volta das 6 da tarde. Tocamos pelo asfalto até Paraisópolis, pois a condição de hospedagem e alimentação é melhor e aonde chegamos às 19:41h. Durante o café da manhã nos encontramos com 2 peregrinos, um jornalista de Brasília que faz tai chi chuan pela manhã e caminha devagar conversando com os proprietários rurais “para saber dos seus problemas” e com um publicitário que é de Sorocaba mas que trabalha no Boticário em Curitiba. Eles iriam apenas até Luminosa nesse dia. Já tínhamos percorrido as 3 maiores distâncias, mas no quarto dia, com cerca de 60km até Campos do Jordão teríamos a maior diferença de altitude a ser vencida de uma só vez, cerca de 1000m na Serra da Luminosa, mas antes disso, a própria chegada a Luminosa já impunha um bom desafio para quem estava com as pernas doloridas, tanto na subida forte como na descida inclinadíssima. Na praça de Luminosa um rapaz perguntou ao Alex de onde éramos e ao saber, disse que conhecia São Carlos – tem uma droga boa lá! Perguntou se o Alex curtia e diante da negativa ele afirmou que aqui “tem um pó do bom”. O único pó que tínhamos era a poeira das estradas e fomos subindo a Luminosa até o Quebra Pernas. Nesse trecho a minha bike começou a apresentar problemas na transmissão. Chegamos à Pousada Barão Montês em Campista, onde o proprietário, Márcio, preparou para nós um ótimo almoço. Seguimos até Campos do Jordão já sabendo que encontraríamos um casal que estava caminhando. Encontramos-nos durante o jantar na pousada, ele um senhor de 65 anos, de corpo franzino, mas ativo. Disse que caminha muito todos os dias e que pedala mais de 20km recolhendo lixo. Ela uma senhora forte de uns 40 e poucos anos, bancária, 3 filhos quase adultos e que na semana seguinte iria a Portugal e Espanha, inclusive a Santiago de Compostela, mas que não iria fazer essa peregrinação. O marido dela iria buscá-los de carro em Aparecida. Na manhã seguinte durante o café às 6 da manhã encontramos com outro casal, ele com mais de 60 anos e ela por volta dos 30, ele seguia caminhando e ela ia de cidade em cidade de ônibus ou carona e o esperava. Ele não estava em boas condições, estava sentindo fortes dores nas pernas, mas estava propenso a concluir.

      Faltavam 14 minutos para as 7 da manhã quando deixamos a pousada e por volta das 10:30 já estávamos em Aparecida. Chegando ao Santuário a Van que havíamos contratado já estava nos esperando. Sinto sempre uma emoção muito grande ao receber o diploma que atesta o cumprimento do Caminho Da Fé e também pelo clima que tem na basílica. Depois de tomarmos banho, trocarmos de roupas e comprarmos algumas lembranças deixamos Aparecida por volta do meio-dia e chegamos a São Carlos às 5 da tarde.

      O Caminho Da Fé, percorrido dessa maneira, é o lugar onde você não vê a hora de terminar e quando termina não vê a hora de fazê-lo novamente. Já sabemos o que devemos fazer para percorrê-lo em apenas 4 dias.

domingo, 4 de setembro de 2011

53 Anos.

      Estou para completar 53 anos e há uma coincidência cíclica em minha vida. Normalmente entre as idades terminadas com 2 e 4 costumo estar bem fisicamente. Não são muito claras as recordações dos primeiros anos entre 2 e 4, porém mais perto dos quatro me lembro da casa, da goiabeira, de ir até a esquina na bicicleta do meu pai quando ele ia para o trabalho e eu voltava correndo, de me deitar com meus pais na cama deles logo após o almoço e ficar escutando as conversas, e também do nascimento da minha irmã.

Casa em que morei entre 1958 e 1963. Essa foto foi tirada em 1997.
A casa não mais existe, foi destruída em um incêndio e onde está o mamoeiro ficava a goiabeira.

      Entre os 12 e 14 anos eu estava no antigo curso ginasial e estudava à tarde. Foi nessa época que aprendi a jogar basquete e passava as manhãs e noites na faculdade de educação física, que era perto de casa, sempre rodeando as quadras de esportes esperando que me chamassem para completar um time. Eu jogava todos os dias. Fiz uma tabela de madeira que prendi no galho da mangueira do quintal de casa e cujo aro era um volante de Kombi. A rede fui eu mesmo que fiz com linha de nylon, pois é, eu também sabia fazer redes de pesca. Nessa quadra improvisada aprimorei as jogadas e arremessos, e me lembro de um jogo contra o meu irmão, sendo eu “abusado”, o driblei passando a bola por debaixo das minhas próprias pernas e tomei um chute por isso.

      Já morando em Ribeirão Preto, aos 22 anos, além de jogar basquete também jogava futebol de salão. Eu pesava apenas 57 kg e corria muito, não era muito rápido, mas sim resistente. Nós jogávamos basquete na quadra do SESC que era aberta para a rua, o problema é que só podíamos fazer isso depois que terminavam as aulas, ou seja, o jogo iniciava às 11 da noite e terminava por volta da uma da madrugada. Disputei vários campeonatos locais, tanto de futebol de salão quanto de basquete e até ganhamos alguma coisa.


Jogando Futsal em Ribeirão Preto em 1981.

      Aos 32 anos me mudei para São Carlos e no início trabalhei muito, cheguei a perder 4 quilos dos 77 que eu pesava, mas ainda não tinha voltado a praticar esportes. Depois de estabilizado encontrei o caminho ideal, a academia do Meneghelli, que ficava ao lado da Praça Santa Cruz, onde além de preparação física 3 vezes por semana sempre havia um joguinho de uma meia hora. Conheci algumas pessoas que corriam e passei a correr também, algo como 10km, não muito rapidamente, mas facilmente. Na empresa montei um time de basquete e disputamos os jogos operários umas 2 ou 3 vezes e estivemos sempre entre os primeiros lugares e em um ano chegamos a ser campeões.

      Estudei engenharia em Ribeirão Preto em um curso noturno viajando todos os dias, ou melhor, todas as noites. Eu não contava o tempo para concluir, contava os kilômetros. Dormia mal, comia mal, trabalhava muito, descansava pouco e aos 42 anos cheguei a pesar 82 kg. Por causa de um problema secundário acabei parando no cardiologista e através de exames foi verificado que o nível de triglicérides era muito elevado. Continuei com a minha rotina, mas acrescentei a academia 3 vezes por semana e com a ajuda de uma nutricionista mudei a alimentação. Meu peso despencou para 73kg. Nesse período também comecei a jogar tênis, não de maneira exímia, mas socialmente eu me virava bem.

Jogando Tênis na Academia Reppening em 2002.

      O tênis exige muita explosão e rotação, e com sucessivas lesões nos quadris, joelhos e panturrilhas, voltei a correr, minha melhor marca foi de 12 km em uma hora, mas o joelho também reclamou, então aos 51 anos redescobri a bicicleta, brinquedo de infância que naquela época não tive mas que sempre usei. Reformei uma Caloi 10 e para pedalar por 3 km quase morria. Comprei uma moutain bike e após seis meses percorri o Caminho da Fé. Foram 540km em 8 dias. Comprei uma speedy e passei a andar nos acostamentos das pistas e a fazer coisas como ir até Ribeirão Preto, 96 km, a Casa Branca, 102 km, a Rio Claro e voltar, 140 km, fui até o município de Taquaritinga e voltei até Araraquara onde furou o pneu, e como já estava escurecendo pedi ajuda, mas percorri 165km. A Araraquara fui diversas vezes, inclusive a trabalho, e Ibaté é como se fosse o quintal de casa, vou até lá várias vezes por semana. Em setembro do ano passado pedalei por 1.000km, foi uma preparação para subir o Tamalpais Mount (800m) em São Francisco, na Califórnia, eu estava bem e a subida foi fácil. Nesse mês de agosto percorri 1.223 km, inclusive chegando a Vargem Grande do Sul a 170 km daqui, e o próximo desafio será ainda nesse mês: novamente o Caminho da Fé, mas em 5 dias. Como preparação, além da bicicleta, faz 6 meses que estou freqüentando uma academia duas vezes por semana, e tenho ido e voltado do trabalho à pé pelo menos 3 vezes por semana, mas confesso que estou morrendo de medo de não conseguir.

Treinando no Swiss Park com a speed - setembro 2011.

      Desde a descoberta do nível elevado de triglicérides faço anualmente o exame ergométrico e aprendi alguma coisa sobre ele. São 2 protocolos utilizados, o de Bruce, aplicado a pessoas pouco ativas fisicamente ou a corredores de longas distâncias, já que é uma rotina longa e com tempos maiores entre as mudanças de velocidade e inclinação, e há também o protocolo Ellestad que é utilizado para os fisicamente ativos e é esse que costumo fazer. Apesar de sempre estar bem, nunca cheguei ao final do protocolo, o que passou a ser uma meta. Como no ano passado fiz mais de 13 minutos, decidi que nesse exame não faria menos de 14, e aos 14:30 solicitei o fim do exame, mas foi um erro, pois havia sido programado o total de 20 minutos, valor que eu sabia que eu não atingiria. O médico, após ter parado a esteira, me disse que ela reduziria a velocidade automaticamente após os 15 minutos, pois nos últimos 5 minutos são feitas as medidas em regime de recuperação. Fiquei morrendo de ódio, pois até uns 16 minutos com aquela velocidade e inclinação eu conseguiria chegar. Agora vou ter que esperar um ano para bater a máquina.

Volta da USP em São Carlos - 2010 com a Carolina, minha filha.
      Estabelecendo metas como essa espanto a preguiça e continuo bem condicionado fisicamente, e como diz um amigo meu, vou morrer cheio de saúde.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Supermercado.

      Serviço doméstico é mesmo terrível. Ninguém é capaz de desmerecer a sua importância, mas quanto a fazê-lo é outra estória. Limpar, lavar, passar, organizar são atividades que se reconhece apenas quando não são feitas, do contrário, é apenas rotina, invisível e maçante. Acrescento ainda a ida ao supermercado e me pergunto: como pode, com a tecnologia de hoje, ser uma atividade tão arcaica?

      Quando a contra-gosto vou ao supermercado utilizo o carro. Paro no estacionamento. Pego um carrinho e o empurro por entre os corredores e prateleiras. E as ações vão se repetindo: pegar o produto, verificar, comparar, escolher e decidir: ou o devolve-lo à prateleira ou o colocá-lo no carrinho. Ajeitar o carrinho. Cuidado para não amassar. Separar os produtos de limpeza dos comestíveis. Pegar os produtos gelados no final, mas não colocar os pesados sobre os delicados. Sobre alguns produtos ainda tem aquela dúvida, é por peso ou por unidade? Porque os produtos mais caros estão à altura dos olhos e as promoções são com aqueles cuja data do vencimento está tão próxima?

      Corredor de supermercado é um horror, não tem ordem, cada um estaciona onde bem entende. Quem gosta e se diverte fazendo compras pára para conversar com os amigos, e sempre no seu caminho! Se você aguarda para que alguém se movimente e você passe, outro passa na sua frente, enfim, a educação é uma beleza.

      Chegamos ao caixa. Tirar os produtos do carrinho, passá-los um a um pelo leitor de código de barras – o que já é uma inovação, pois num passado nem tão remoto era necessário digitar todos os preços – colocar os produtos em sacolas plásticas, ajeitar as sacolas no carrinho. Empurrar o carrinho até o estacionamento. Tirar as sacolas do carrinho e colocá-las no porta-malas. Volto para casa onde moro no quarto piso de um prédio de apartamentos. Tirar as sacolas do porta-malas e as colocá-las novamente em outro carrinho. Tiro o carro da garagem, pois na interna fica o carro da minha filha, o meu fica na externa. Volto e coloco o carrinho no elevador. Paro no andar de casa mas não entro com o carrinho na cozinha, pois as rodas sujam e marcam o piso. O paro na porta. Tirar as sacolas do carrinho e colocá-las na mesa ou pia até esvaziar o carrinho. Esse volta logo para o elevador porque a maioria dos vizinhos vai ao supermercado aos sábados pela manhã e estão precisando do carrinho. Volto para a cozinha e tiro todos os produtos das sacolas. Guardo as sacolas plásticas para uso futuro e ainda resta um monte de produtos para serem colocados nos armários ou geladeira. Alguém merece? E vejam que nem estou reclamando dos preços.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Telemarketing.

      Em uma certa segunda-feira às oito e meia da noite na cozinha de casa:


Trim, trim, trim...

- Alô,

- Posso falar com o senhor Cesar Augusto An...

- Sou eu.

- Boa noite senhor Cesar, aqui é a A da consultoria B.

- Pois não,

- Então senhor Cesar, como o senhor sabe, hoje o mercado de trabalho está muito competitivo e para ter um bom emprego é preciso ter qualificação.

- Realmente,

- Então senhor Cesar, nós estamos trazendo ao senhor uma oportunidade única e com grande vantagem para que o senhor possa melhor se posicionar no mercado de trabalho atual.

Sim.

Nós temos vários cursos que...

- Um momento,

- Sim,

- Sou técnico em eletrônica, graduado em duas faculdades, já fiz um MBA, mestrado (que é mentira, pois cursei mas não concluí), além do português sou também fluente em espanhol e inglês ( o que é meio verdade ou meio mentira – pode escolher). Qual qualificação a mais você pode me oferecer? Mandarim?

- Então senhor Cesar,

- Vocês estão precisando de professor para os seus cursos?

- Senhor Cesar, a consultoria B agradece a sua atenção, boa noite.

- Boa noite.

Bip, bip, bip.
 
      Essa foi uma das últimas ligações de telemarketing que recebi, pois me cadastrei na lista dos que não aceitam esse tipo de ligação.