terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eu uso óculos

      Parece que foi ontem, pois a lembrança me é muito clara, mas há 10 anos, eu assistia a uma aula do professor Marcelo sobre eletromagnetismo e fazia algumas anotações no caderno, aqui vai um parênteses, eu nem sei porque eu anotava, porque depois não consigo entender a minha letra e também nunca abro o caderno para estudar, mas enfim, eu lia o que estava na lousa e anotava, mas de repente, quando olhei para o caderno ele estava completamente fora de foco. Fiz um esforço, pisquei algumas vezes e consegui focá-lo. Voltei os olhos para a lousa e foi essa quem ficou desfocada, repeti a operação, vi a lousa mas perdi o caderno, e assim fui alternando. Não achei que isso seria definitivo, mas sim porque eu estava cansado e não havia dormido direito. Doce ilusão.

      Esse problema começou a se repetir continuamente até que decidi procurar por um oftalmologista que, depois de perguntar a minha idade, para minha decepção disse que isso era normal. Perguntei-lhe se isso iria parar por aí, mas ele disse que não, que era só o primeiro estágio, pois iria piorar, e piorou. Dependendo da iluminação e do tamanho das letras, estava ficando difícil de entender. Aí vieram aquelas piadas infames, não são os olhos que estão ruins, mas os braços que estão curtos, e por aí vai...

      Resisti bravamente por mais de 5 anos, até que, também me lembro bem, pedi a conta após um jantar e não consegui entender nada. Eu estava com alguns fornecedores americanos, eu era o único brasileiro e não tinha intimidade com eles, achei chato pedir para que eles lessem a conta para mim, assinei, meio que pelo rumo, o ticket do cartão de crédito que estava em dólares. Chegando ao Brasil procurei pelo médico e peguei a primeira receita. Procurei por uma ótica e fiz o meu primeiro par de óculos como se eu estivesse escolhendo a casa da minha vida, pois parecia que ele seria para sempre, cheio das frescuras, no tamanho, na forma, na cor, no modelo e na lente. Passei a usá-lo como quem está escondendo algo, mas tinha o lado bom: as letras ficaram grandes, claras e o braço ficava dobrado.

      Tudo ia bem até que a armação quebrou. Voltei à ótica e não tinha mais aquela armação,ou seja, tive que fazer outro, e depois outro e outro e hoje tenho uma coleção. Cada um com uma aplicação e cada um com uma armação diferente. Agora o que manda é a qualidade da lente, o modelo, tamanho, cor e etc, são secundários, o que importa é o resultado, pois estou numa situação que não posso mais sair sem ter um deles comigo, e até para ver a tela da câmera fotográfica preciso deles. Como a operação de colocar e tirar lentes de contato me parecem uma operação impossível, devo admitir: eu uso óculos.

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