sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Senhor Presidente.

      Senhor Presidente, admito que votei no senhor apenas no segundo turno da eleição contra o Collor, mas no primeiro turno votei no Mário Covas. Também admito que não sou contra o seu partido, pois já votei em seus candidatos desde a sua criação ainda nos tempos do Airton Soares, e também votei no Suplicy, no Mercadante, no Machado, no Newton Lima, enfim, voto na pessoa e não na agremiação. Destaco no PT a força da militância, pois essa junto com o jornal A Folha de São Paulo e a revista Veja foram os responsáveis pela única deposição de presidente eleito já ocorrida no país.

      Senhor Presidente, admito que me surpreendi positivamente com o seu governo, pois o senhor num exemplo de rara inteligência não seguiu as recomendações do documento chamado A Ruptura Necessária que o PT editou antes de sua eleição e que afastou os investidores obrigando aquele governo a elevar a taxa de juros para conter o ataque especulativo contra a moeda, e mais ainda, além de não mudar a política econômica implantada pelo FHC, que o seu partido foi contra, o senhor colocou o então Tucano Henrique Meireles para comandar o Banco Central que aliado ao ex ministro Palocci, respeitaram os contratos e mantiveram o país no rumo do crescimento. Imagine então o senhor o que ocorreria se o seu partido não tivesse sido contra outras tantas medidas de saneamento que o Fernando Henrique tentou implantar, como a que aumentava a idade mínima para a aposentadoria. Todos sabemos que essa é uma bomba relógio que deverá ser desarmada, veja os exemplos pipocando em toda a Europa. Em 2012 irei adquirir o direito de me aposentar após 35 anos de contribuição e 53 de idade e mesmo tendo iniciado a trabalhar aos 16 anos, não me considero velho ou inválido para ter que vestir o pijama, e pretendo continuar ainda sendo produtivo por um bom tempo.

      Senhor Presidente, se o senhor acertou naquilo em que não mexeu, errou naquilo em que tentou ser diferente, pois sabemos que os resultados econômicos que o senhor colheu ocorreram não por causa do seu governo, mas apesar do mesmo. Mas veja, quando o senhor apoiou a China como economia de mercado para que em retribuição tivéssemos o apoio para um lugar no conselho de segurança na ONU, fomos enganados. Eles não nos apoiaram e nós apoiamos o trabalho de semiescravidão, a pirataria e a moeda local desvalorizada para que seus produtos sejam internacionalmente competitivos, o que prejudica a nossa indústria. Quando o senhor apoiou a tirania na Venezuela, perdeu a oportunidade de liderar politicamente a America Latina permitindo que eles se armassem até os dentes com equipamentos russos que poderão ser usados contra nós mesmos. Quando o senhor apoiou a ditadura na Bolívia apoiou também a plantação extensiva de coca cujo subproduto é trazido para cá e fomenta o tráfego e a violência. Quando o senhor mandou deportar os atletas cubanos que haviam desertados da delegação durante o Pan Americano condenou inocentes, mas quando manteve o foragido italiano em território brasileiro contribuiu para a impunidade, e pior, ao comparar as masmorras políticas de Cuba com as prisões paulistas o senhor deixou de intervir na morte certa e imediata do dissidente em greve de fome.

      Senhor Presidente, voltando às questões econômicas, mas dessa vez internacionais, podemos ver que o senhor governou mesmo sem oposição. Oposição que além de ser fraca em seus próprios quadros não presta nem para brigar. Na atual campanha para a presidência, o seu partido tem um único mote, a Petrobras e o pré-sal. Eles se mostram como os únicos defensores, mas o que ocorreu na invasão das duas refinarias na Bolívia? Elas foram entregues de graça e a oposição não fala nada? O que ocorreu quando o presidente eleito do Paraguai exigiu o reajuste da tarifa de energia elétrica que pagamos a eles? Os contratos foram simplesmente ignorados e nós que pagamos pela usina, damos energia elétrica a eles, pagamos pela energia que utilizamos ainda temos que reajustar os valores unilateralmente? É fácil fazer caridade com o dinheiro dos outros, não é mesmo? E cadê a oposição?

      Senhor Presidente, perder e ganhar, errar e acertar são situações normais em nossas vidas, mas há escolhas que comprometem a nossa biografia e por isso faço mais algumas perguntas: não basta ter tirado da cartola uma candidata e tê-la colocado no segundo turno das eleições? Prá que continuar praticando essa política rasteira de militante? Será que há algum esqueleto dentro do armário que o senhor não quer que apareça? Pois do contrário, o quê justifica violar todas as regras eleitorais e pagando apenas as multas? O simbolismo que tal atitude carrega é que tudo é possível para quem detém o poder. O quê justifica a sua participação no horário eleitoral acusando o candidato da oposição de forjar a agressão e logo em seguida ser desmentido pelo Jornal Nacional? Deixe que os candidatos de digladiem se eles assim o querem, mas preserve a instituição da presidência. Mais valeria uma manifestação contra a violência. Seria mais digno de um presidente se opor a qualquer tipo de violência e deixar que o povo fizesse juízo de valor. Seria mais digno de um presidente conduzir o processo sucessório como árbitro de uma disputa limpa, digna, da estatura de um país que tem riquezas e potencial para ser realmente grande e não ser classificado como uma república bananeira.

      Senhor Presidente, se o senhor teve a grandeza e a dignidade de não rasgar a constituição e conseguir, o que seria fácil, um terceiro mandato, não deixe que o sangue de torcedor fale mais alto do que a razão democrática. Seja visto como estadista e não como sinônimo daquilo que de pior representa a nossa classe política, baixa, sem escrúpulos e cujo objetivo é apenas servir-se do povo mantendo-o alienado com o velho pão e circo.

      Senhor presidente, o seu compromisso não é com o seu partido, mas com a história.

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