domingo, 24 de outubro de 2010

Senhor José Serra.

      Senhor José Serra, votarei no senhor no próximo dia 31 como o fiz no último dia 3 e em todas as últimas vezes em que o senhor se candidatou seja a presidência, senado, câmara dos deputado ou governado do estado. Faço isso porque acompanho a sua vida pública desde a sua primeira passagem pela Secretaria de Fazenda de São Paulo, e nem me lembro de qual gestão. Naquela época o senhor implantou um sorteio de prêmios entre aqueles que enviassem as notas fiscais de produtos comprados com o objetivo de aumentar a arrecadação e combater a sonegação fiscal. O processo não foi muito bem sucedido como o atual Nota Fiscal Paulista por vários motivos, dentre os quais a nossa cultura. Mesmo eu que aprovei e considerei inovadora a ideia, não enviava as notas, no entanto não é sobre isso que quero falar, vamos falar da sua atual campanha e de seus projetos.

      Senhor José Serra, se as suas gestões não foram lá essa maravilha, também não foram decepcionantes, apesar das críticas, tenho consciência do que é administrar o patrimônio público e ter que fazer escolhas sob pressão, pois a demanda é muito maior do que o capital disponível para implantá-las. Por isso, pela sua história e pela liderança em seu partido e coligação é natural o seu postulado. Também entendo a necessidade de coligações com adversários, como o Quércia, que eu também já apoiei, mas não devemos nos esquecer que ele é o tal que quebrou o estado para fazer o sucessor, mas não deveria ser esse tipo de alteração política fazer parte do seu programa de partido e de governo? Por que o senhor nunca fez nenhuma proposição dessa envergadura? Por que perde votos? Por que perde apoio? Mas isso não ocorreria apenas na esfera política, mas se tivesse apoio popular os interessados teriam que procurá-lo e o senhor poderia dizer-lhes um simples e sonoro não? Tanto isso é verdade que o Collor se elegeu com a sua própria força e apoiado por um partido minúsculo que hoje nem sei se existe mais, não é mesmo?

      Senhor José Serra, o senhor que nunca esteve envolvido em um grande escândalo, tem fama de trabalhador incansável, austero, líder e autoritário, tem o comando de seu programa de governo e de sua campanha? São suas as propostas do salário mínimo de R$ 600,00 e de 10% de aumento aos aposentados? Isso não lhe soa artificial? Isso não parece ser a tábua de salvação de um náufrago? O seu programa na televisão tenta nos vender a imagem que o senhor é uma pessoa humilde, do povo, mas todos sabemos que é uma imagem tão verdadeira como a nota de três reais. O senhor até pode ser boa pessoa, mas é sofisticado e pertence à classe daqueles que não precisam fazer contas para saber se o mês cabe dentro do salário, logo, é lícito tentar mostrá-lo de maneira inexata? Não seria mais sensato mostrar apenas projetos, propostas, ideias e não construir uma imagem irreal? Não seria mais produtivo mostrar os abusos do atual governo como a enormidade de cargos comissionados e prometer acabar com esse descalabro? Também não seria mais adequado reforçar a ideia da profissionalização dos cargos de comando das estatais e autarquias ao invés da sindicalização e aparelhamento hoje existentes.

      Senhor José Serra, por duas vezes o senhor foi, com muito sucesso, ministro do governo Fernando Henrique, que é reconhecido por importantes realizações, entre elas a estabilização econômica e a modernização do país, portanto, o senhor é um legítimo herdeiro desse patrimônio, então, porque o Fernando Henrique não participa do seu programa? Isso não é uma injustiça? Não lhe parece um descabimento que o senhor louve mais as bolsas misérias do atual governo do que os acertos do antecessor? Sim, eu sei que a atual campanha adversária, apesar de ter se apropriado das benesses criadas pelo governo de seu partido, ainda cria a imagem negativa das privatizações, ou seja, rifa a bola, joga para a torcida, mas eu conheço o bem que o processo de privatização fez à economia, pois por vários anos paguei meio salário mínimo de aluguel pelo uso de uma linha telefônica porque não havia linhas disponíveis para serem compradas, e se hoje há mais linhas de celular vendidas do que pessoas no país é porque as empresas foram modernizadas. Esses são apenas dois exemplos da ineficiência do governo atuando como empresário, mas desconstruir essa imagem é um processo que antecede o período de campanha, logo, não teria sido mais inteligente ter abordado esses temas massivamente durante os 4 anos, e hoje, com a população mais esclarecida, utilizá-las fazendo justiça ao trabalho bem feito?

      Senhor José Serra, o senhor pode até vir a ser o nosso próximo presidente, ter acertos e cometer erros como ocorre em toda administração, mas por essa ingratidão a história não o perdoará.

Um comentário:

  1. Essa série terá 5 artigos. O próximo, evidentemente, será o Senhora Dilma.

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