sábado, 23 de maio de 2015

Servir ao Povo

    Dizem que há duas coisas certas na vida, a morte e os impostos. Pode ser que algum dia escapemos da morte, mas dos impostos, com certeza não. Cerca de 40% do PIB (Produto Interno Bruto - que é a soma de tudo o que é produzido no país durante um ano) do Brasil é arrecadado em impostos. Deus e todo mundo indicava que a política econômica do governo estava sendo mal conduzida, menos o próprio e os que dele se aproveitavam. Agora estamos ladeira abaixo com aumento do desemprego, da taxa de juros, do câmbio e da inflação que já está beirando os 8,5% anual e que penaliza justamente os mais pobres. Passadas as eleições o governo anuncia a mudança de rumo da economia e apela mais uma vez para quem paga aumentando os impostos ao invés de cortar suas despesas. Tem governo demais e governança de menos. Só para iniciar é impossível ser eficiente com 38 ministérios. Se começasse reduzindo para 15 já seria uma boa sinalização e excelente economia, além do mais, já que não conseguem estancar a corrupção haveria menos pessoas tentadas a nos roubar.

      O chamado contingenciamento de 70 bilhões irá reduzir a verba essencial para a saúde, segurança e educação, ou seja, o que está ruim ficará pior, e nesse momento de crise temos absurdos criados como o projeto do novo prédio para abrigar parlamentares (e um shopping center). Eu proponho deixar o prédio atual como está e reduzir o número de parlamentares, e mais, reduzir a quantidade de assessores dos parlamentares, com certeza iria sobrar espaço. Para que temos 513 deputados? Não precisamos de mais que 200, um apara cada um milhão de habitantes. Para que 81 senadores? Bastariam 26, um por estado e não conte o distrito federal. Para que suplente? Saiu, perdeu! Deixou o congresso para ser ministro? Fica vago até a próxima eleição, assim acaba com essa promiscuidade. Há senador que é nomeado ministro e o suplente assume, e se o governo não confia no suplente para uma votação específica exonera o ministro e esse volta ao senado apenas para votar e em seguida é novamente reconduzido ao ministério. Isso é o cúmulo da desfaçatez. É rir na nossa cara.

    Para que existem as emendas parlamentares? Para os políticos venderem favores aos eleitores de "suas bases eleitorais"? Parlamentar precisa é fazer lei, não arrumar verba para quadra de esporte. Acabar com essas emendas  faria reduzir, e muito, a vontade de muito picareta se candidatar. Que se acabe com essa excrescência já!

      Para que pagamos por mais de 30 partidos políticos se apenas meia dúzia é que dá as cartas? Não precisamos de mais do que 5, os dois de extrema direita e esquerda, os dois moderados de esquerda e de direita e um de centro e chega! Para que pagamos imposto sindical? Para sustentar pelegos? É bom também rever a questão dos subsídios a muitas das entidades ditas não governamentais mas que vivem apenas de verba pública, ou seja, um contra-senso. Uma coisa é ajudar a APAE, outra é sustentar o MST. Não dá para ficar pagando diária para manifestante ( e arruaceiro ) profissional que vai para manifestação de apoio ao governo com diária, alimentação e ônibus com ar condicionado pagos com o nosso dinheiro. Isso não é informação da pseudo "imprensa de direita" eu vi, e mais de uma vez. Congestionamento de ônibus e fila para receber refeição, todos com a camiseta vermelha e bandeirinha do PT e do MST.

      Eu gostaria que alguém me desse uma justificativa plausível para que o governo gaste com propaganda. Esse dinheiro seria muito bem gasto se fosse utilizado em campanhas educativas de diversos temas, e o principal deles é a do controle da natalidade. As pessoas têm o direito de ter quantos filhos quiser, mas devem ser instruídas para não ter os que não desejam, pois como se dizia antigamente, a família é a célula da sociedade.  Eu também gostaria de saber por que pagamos por uma TV pública que ninguém assiste e que não produz nada de interessante, a ressalva foi a TV Cultura que hoje não é nem sombra do passado, que embora tivesse baixa audiência fazia produções primorosas. Para que mantemos uma TV Câmara? Uma TV Senado? A Voz do Brasil? Entre embaixadas e representações, o Brasil mantém 138 Missões Diplomáticas, para quê? Sabemos que muitas são um luxo só, mas com salários e aluguéis muitas vezes atrasados. Será que umas 50 não seriam suficientes? Não é hora de priorizar aquelas onde há a necessidade de assistência a mais brasileiros e que possuem grande apelo comercial?

      Vem de longe a cultura da ineficiência do governo na gestão de obras públicas. É um tal cartel para cá, superfaturamento para lá, aditivos de contratos que não têm fim, obras mal feitas, inacabadas, mal geridas e desnecessárias. Isso em todas as esferas. É tempo de acabar com a ideologia e deixar para o governo apenas a regulação. A execução tem que ser do setor privado que é quem emprega, produz e paga imposto. Uma faxina nos contratos existentes também viria a calhar.

      Se começar a desenrolar esse novelo com certeza poderiam cortar os impostos da cesta básica e dos medicamentos o que iria, em muito, melhorar a vida dos mais necessitados, e ainda sobraria dinheiro. Acho que está na hora do governo deixar de pensar em si e pensar no povo. Ter coragem para fazer o certo que é servir ao povo e não servir-se desse.

domingo, 3 de maio de 2015

Sorte?

    Eu nunca havia tido a sorte de ter sido agraciado, escolhido, sorteado em loteria, sorteio, raspadinha, bingo, cartela, rifa ou coisa assim. Me lembro de ter comprado todos os 100 números de uma rifa feita na escola, doei 50 e perdi com os outros 50 na mão. Apenas no bolão da copa do mundo de 2010 fui o maior pontuador mas, ainda assim, tive que dividir o prêmio.

      Em minha mudança para Salvador trouxe poucos móveis, mobiliei a casa comprando quase tudo aqui. Antes da mudança fiquei por meses namorando um televisor 4K de tela curva, mas o achava muito caro. Até que veio a mudança e eu não podia mais esperar, fui à loja disposto a resolver. Olhei, pesquisei, comprarei e não o comprei. Comprei outro, tão grande quanto, também 4K, porém com custo menor, mas ainda assim, caro. Instalei-o em casa e me registrei no site por causa da garantia e, ao fazer isso, recebi uma promoção da Netflix, três meses gratis, e para mim que já era assinante, foram 3 meses sem pagar a fatura, algo em torno de R$ 55,00 no total. A minha decepção veio já na semana seguinte. Estava lendo a Veja e havia uma promoção de uma loja na qual o televisor de tela curva havia tido uma redução de quase 40% no preço, e o pior, não era apenas uma promoção, o preço caiu mesmo. Nem me atrevi a pesquisar para quanto teria sido mudado o preço do televisor que comprei, não queria me chatear mais.

      Havia algo interessante na caixa do televisor, um circuito eletrônico avulso que pesquisei e se tratava de um rastreador de carga. Ele vem com um chip de celular que deve funcionar com a tecnologia GPRS e tem uma bateria que dura cerca de 30 dias. Aliado ao número de série permite que o aparelho tenha seu itinerário rastreado desde a saída da fábrica. Testei o equipamento porém ele não estava mais ativo. Me peguei até pensando se nisso não há alguma violação de privacidade, mas ficou só no pensamento.

      Sempre recebo em meu celular e conta de e-mail aqueles spans dizendo que acabei de ganhar alguma coisa que deleto sem abrir, mas que leio sempre as primeiras linhas ou o remetente, e foi assim no final de novembro. Havia um que se repetia insistentemente e que metodicamente era apagado. Recebi também duas ou três ligações que partiam dos Estados Unidos e que eu não atendia, pois não costumo atender a ligações de número que não conheço, até que algo me chamou a atenção em uma mensagem e resolvi abri-la sem clicar em macrolinks. Tal mensagem dizia que eu havia sido contemplado pelo fabricante do equipamento em conjunto com a Netflix e indicava um telefone para contato. Também não dei importância por um tempo. As mensagem se repetiam até que procurei o manual do televisor e vi que o número de telefone indicado na mensagem era o mesmo do fabricante. Pronto, encontrei um vínculo de seriedade. Liguei para o tal número e me direcionaram para outro. Conversei com uma moça, trocamos algumas mensagens, informei alguns dados e passei a me comunicar com uma agência nos Estados Unidos.

      A tal promoção do televisor 4K e da Netflix era para que eu assistisse, assim como fiz, a série produzida especialmente para ser assistida via streaming: House of Cards, que trata de um político desonesto que chega a ser presidente americano e, evidentemente, se passa em Washington. Pois é, foram sorteadas no Brasil duas viagens com acompanhante para Washington e eu ganhei uma delas. Para as minhas próximas férias em setembro já tenho as passagens, a reserva de hotel, algumas despesas pagas, incluindo transporte e guia para várias atrações. Pagarei apenas por um trecho a mais, pois resolvi estender a viagem em alguns dias.

      Eu não estava excessivamente contente com isso, mas apenas alegre por ter uma estória de sorte para contar, até que na última quinta-feira o televisor quebrou. Me parece haver um problema simples de fonte, daqueles que se consertam com facilidade e, além do mais, em garantia, porém já vai me dar trabalho e me fazer perder tempo, ou seja, estou pagando até para ter sorte. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Para Ler Dostoiévski

      Fazia muito que eu estava acordado e não eram ainda seis da manhã em São Carlos. A Nega dormia ao meu lado em um hotel simples mas bem equipado. Ao invés do barulho do televisor preferi ler as mensagens e acessar a web até que ela acordasse. Às sete tomamos café e exagerei no carboidrato pois sabia que o dia seria longo e as refeições irregulares. Após me barbear, tomar banho e arrumar as malas deixamos o hotel para nos encontrar com nossa filha, genro e neto.

Romeo dormindo em meu colo.
      
      Entre conversas e planos recebemos a visita de uma amiga que há um ano eu gostaria de ver. Foi rápido, mas acalentador, pois é bom saber que ela está bem. Às dez da manhã e após ter tomado banho, o neto, de uma semana, se pôs a chorar e parou no colo do avô babão, que andava feito tonto pela casa e conversava com ele assistindo àqueles olhinhos admirados. Foram quarenta e cinco minutos curtos e com os três quilos mais leves que há tanto tempo eu não carregava. Chegou nova visita, uma família de amigos que já são de casa. O meu prazo se esgotou. É hora de ir para a rodoviária, não sem antes me lamentar pelas despedidas.

      Com cinco minutos de atraso chegou o ônibus, novo, limpo, refrigerado e confortável. Veio cheio de estudantes, principalmente garotas que dormiam esparramadas pelas poltronas. Como é linda a juventude, e seria mais ainda se não se excedesse nas bebidas alcoólicas. A parada de vinte minutos é mais do que suficiente para uma alimentação de bom sabor e baixa qualidade. Mas o posto, assim como atestei na ida, quanta diferença com os da realidade da Bahia. Grande, limpo, decorado, confortável, refrigerado, com muita opção, inclusive de comida saudável, onde o wifi funciona, o 3G funciona, e sob a marquise de 80m x 5m não se fuma. Apesar de ser dia de retorno do feriado prolongado o movimento foi tranquilo e as estradas, Washington Luis, Anhanguera e Bandeirantes são boas.

      Aproveito o conforto e o tempo para ler Dostoiévski enquanto ouço uma sequência em ordem alfabética das quase mil músicas armazenadas no telefone. Entre estrangeiras e nacionais comecei onde havia parado, na letra I e terminei na M, muito antes de Metamorfose Ambulante, do baiano Raul Seixas. A chegada a São Paulo foi com chuva e trânsito bom. Tudo muito rápido no Terminal Rodoviário do Tietê, por onde o Brasil inteiro passa. Só dá para ficar contrariado com o preço do taxi, R$ 120,00 para ir até o aeroporto de Guarulhos. Há outras opções, mas para não perder tempo, é melhor pagar. Sem problemas cheguei à sala de embarque com uma hora de antecedência o que me fez ler um pouco mais. Os terminais 1 e 2 foram ampliados, remodelados e não estão dos piores, mas falta sinalização, escadas rolantes e fingers, pois ainda há embarques em que se toma um ônibus para se chegar até o avião. Como não ia ter janta em casa, tive que morrer com o preço elevado da comida ruim daqui mesmo.
Área de embarque doméstico do aeroporto de Guarulhos.

      Quando você for de São Paulo a Salvador aconselho a pegar uma poltrona na janela do lado direito. Durante o dia e mesmo à noite, a chegada é bonita. O sobrevoo na Ilha de Itaparica, em grande extensão da Bahia de Todos Os Santos, a vista do Farol da Barra, da orla, da via Paralela são de se admirar. Durante o dia, se olhar bem vai aparecer muita coisa feia, mas a parte bonita se sobressai. O estacionamento contíguo ao aeroporto de Salvador é prático, mas além de ruim é caro, nunca vi um atendimento tão ruim. Ali não se faz jus à fama de ser, o povo baiano, acolhedor. Das muitas dezenas de vezes que passei por lá em apenas uma a atendente me cumprimentou. Dessa vez utilizei um estacionamento mais distante por ser mais barato, mas que disponibiliza um serviço de van para os clientes. Não é tão prático, mas para estadias mais longas o preço compensa o desconforto. A via de saída da área do aeroporto sob os arcos de bambus é particularmente bonita durante o dia e até mesmo à noite tem seu charme.

      Tempo bom, trânsito tranquilo e rapidamente cheguei à nossa casa para rever e conversar com nosso filho. Saber e contar as novidades, jogar um pouco de conversa fora, ler as mensagens e dormir cedo para acordar cedo que amanhã é dia de voltar a trabalhar, e trabalhar muito. No próximo dia cinco completarei um ano trabalhando em Salvador e essa foi a primeira vez que deixei de trabalhar por quatro dias seguidos. Por várias pessoas eu faria isso, mas dessa vez foi especial, foi pela filha e pelo neto. Chego ao final do dia cansado, já com saudade mas muito feliz.

domingo, 5 de abril de 2015

Não Está Fácil Para Ninguém

      Tenho ouvido muito a frase “não está fácil para ninguém” e como para mim não está, não deve estar mesmo. Um sintoma é que tem muito jovem clamando pela ditadura militar sem saber ao certo o que isso significa. Com certeza eles não sabem que a liberdade tem um valor inestimável, e não sabem porque são livres. Eles não experimentaram a repressão e a que eles conhecem é só a que aparece nos noticiários, longe da gente. Outro sintoma vem dos próprios jornais, só desgraça. Não há notícia acalentadora, apenas tragédias, crimes e bobagens.

      A inquietação provém da falta de esperança. É chover no molhado, mas a educação é uma piada, poucos chegam a um nível de excelência; a maioria apenas consegue um grau sofrível. Faz tempo que observo isso no ambiente profissional e nos atendimentos de serviços, muita gente se expressa mal mesmo em linguagem coloquial, nota-se que o conhecimento é parco e o raciocínio é primário, pouco elaborado. Some-se à isso a violência. Hoje pode-se dizer que o crime compensa. O grande exemplo vem das autoridades. Cada grande escândalo é esquecido quando se descobre o próximo. É muita gente roubando, é muita gente se aproveitando do poder para servir-se. Se o crime compensa para nossas autoridades qual é o exemplo que eles dão aos jovens? Estudar para trabalhar? Isso é coisa de otário, “se dar bem” é o que importa. O caminho mais fácil é o que é valorizado.

      Também vivemos um tempo de muito mi mi mi. Nesse tempo do politicamente correto sempre há quem se sinta ofendido por coisas óbvias. Os valores são confusos e o patrulhamento ideológico é perverso. Basta a defesa de um tema polêmico para ser perseguido, principalmente nas redes sociais que tem rápida e profunda penetração. Para expressar aquilo que lhe é correto deve-se pensar muito para que não seja processado ou moralmente linchado.

      Sim, análise superficial e crítica, assim como eu, todos são capazes de fazer, mas como resolver? Há saída? Claro que sim, na democracia sempre é mais difícil atingir os resultados, mas com certeza há pessoas capacitadas a nos liderar e nos conduzir por um bom caminho.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Miserável Sexta-feira 13

      Salvador não é exatamente uma cidade pacífica, ao contrário dos 15 homicídios que ocorrem anualmente em São Carlos, aqui são mais de 2000, assim como também é grande o número de furtos e roubos, o que exige prudência. Com trânsito complicado existem em certos cruzamentos pessoas que vendem de tudo, comida, água, escova de dentes, suporte para GPS, protetores para painel de carros, o “must desse verão: o pau de selfie” e há também os lavadores de parabrisas. Mal o semáforo se fecha e lá vem uma turma com garrafas plásticas cheias de água misturada com sabão, e, sem pedir, jogam esse visgo no vidro do seu carro, vão passando um rodinho e pedindo dinheiro. Dentro do carro parado, abrir os vidros e segurar uma carteira ou outro objeto de valor pode ser perigoso, assim não costumo aceitar nenhum desses serviços, não que eu não pudesse ajudar, mas não quero me expor.

      Da minha casa ao trabalho são cerca de 34km que, com o trânsito livre e trafegando no limite da velocidade permitida, gasto mais ou menos 45 minutos, mas o retorno às sextas-feiras é mais complicado, pois esse também é o caminho para o litoral norte, e hoje é sexta-feira 13.

      No final da tarde das duas últimas sextas-feiras houve problemas sérios em meu trabalho, logo, deixei a empresa mais tarde do que o normal, porém hoje, como eu estava cansado, resolvi sair mais cedo e consegui: 40 minutos antes. 

      Ainda lá perto há uma passagem estreita na qual é possível passar dois carros simultaneamente, mas não pode ser de qualquer jeito. Quando eu estava passando veio um carro no sentido oposto e pelo aspecto do motorista logo imaginei: vai dar m…, e deu. Eu já estava parado, ele saiu acelerando e raspando no meu carro. Nem pude parar para ver o que ocorreu, pois estava interrompendo o trânsito.

      Pouco depois na região do Iguatemi, ao parar no semáforo fui abordado por um dos lavadores de parabrisa, e como não me dignei a dar-lhe algumas moedas fui chamado insistentemente de miserável e de coisas piores.

      Eu já tinha percorrido cerca de 20km e estava na centro das 5 faixas da pista quando o fluxo foi reduzindo lentamente até que parei. Um motorista não parou no tempo certo e abalroou a traseira do meu carro. Desci em um local perigoso para analisar, mas como o estrago não era visível resolvi vir embora, não sem antes notar que o motorista do outro carro estava embriagado, não completamente, mas visivelmente.

      A partir desse momento eu só queria chegar em casa, o que ocorreu 1:10h após ter deixado a empresa. Em casa pude ver, apesar da pouca luz, que se houve estragos, esses são pequenos. Por não ter ocorrido nada sério nem posso dizer - miserável sexta-feira 13. Mas, pensando bem, ainda restam algumas horas...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Gripe do Ano

      Em alguns momentos o carnaval fez parte da minha vida. Na infância, adolescência e mesmo adulto, frequentei alguns clubes em épocas de carnaval e agora me vejo em Salvador, reconhecidamente um dos centros brasileiros do carnaval, porém agora não mais como participante, mas como trabalhador. Não estive nos circuitos e nem nos camarotes no período das festas, mas estive antes, na preparação, o resto assisti pela TV ou senti no trânsito.

      Não tenho conhecimento de outra cidade brasileira que conviva tão bem com o carnaval e não o digo pela participação popular, mas pela mudança na vida das pessoas, principalmente na dos moradores. Há 3 circuitos oficiais, o do Pelourinho, onde tem festa o ano todo e não recebe muita intervenção física, mas o fluxo de pessoas se expande enormemente nessa época. O do Campo Grande que é uma praça em frente a qual se localiza o famoso Teatro Castro Alves (TCA) e cujas laterais são tomadas pelas estruturas metálicas. Em uma das laterais fica uma arquibancada com 30.000 lugares e na outra alguns camarotes, pequenos para os padrões locais, e a estrutura para a cobertura das rádios e TVs. Os trios e os blocos passam por essas duas ruas e seguem em direção à Praça Castro Alves, e, por fim, o circuito Barra - Ondina de aproximadamente 3km que os trios levam cerca de 4 horas para percorrer. Nesse circuito ficam localizados os principais camarotes, alguns muito grandes, cuja lotação é de aproximadamente 2.000 pagantes e 300 funcionários.

Camarotes e estruturas de rádios e TVs no Campo Grande

      Tais estruturas começam a ser montadas em janeiro e terminam de ser desmontadas 15 dias após a quarta-feira de cinzas. São centenas de operários, máquinas, caminhões e guindastes trabalhando, fechando ruas, impedindo acessos e bloqueando calçadas. Nos dias da folia apenas moradores conseguem acesso, desde que apresentem comprovante de residência, mesmo assim se não houver bloco passando, pois nesse horário nem ambulância passa. Mãos de direção são mudadas e as ruas são invadidas por milhares de ambulantes, que montam seus minúsculos quiosques e por lá permanecem por uma semana, se alimentando e dormindo nas próprias ruas, calçadas, marquises e onde mais for possível. Não dá para falar disso sem esquecer dos mais de 2.300 sanitários químicos instalados. De repente pode ter uns 10 colocados em frente ao seu prédio, e como eles são poucos frente a quantidade de cerveja que é vendida, e todos conhecem as propriedades diuréticas do álcool, imaginem o que ocorre e o cheiro que fica.

Unidades móveis de produção e transmissão de TVs estacionadas na lateral do Campo Grande

      Os músicos e as bandas tocam de tudo. Todas as misturas são permitidas, de sertanejo, passando por funk a axe misturados no mesmo trio elétrico, e sem esquecer a MPB e clássicos do roque nacional e internacional. As apresentações também são ecléticas, desde algumas até talentosas a aquelas que fazem um esforço danado para aparecer, vestidos ou nem tanto. Algumas apresentações não não muito honestas, pois o público quer música para festejar, cantar e dançar e o músico balbucia 2 ou 3 palavras e fica “na mãozinha para cima” ou “tira o pé do chão”, pouco para quem pagou caro pelo Abadá.

      Nesse ano o Axé Music completou 30 anos e o carnaval começou um movimento de volta ao popular, aumentando o número dos trios sem cordas e as festas que ocorreram também em 6 bairros com mais de 200 shows. Há também os blocos com pequenas bandas que desfilam sem trios fora dos circuitos oficiais. Já se estuda, para o próximo ano, aumentar o carnaval em um dia e extender as festividades para 10 bairros. Segundo divulgado pelos veículos de comunicação, mais de 700.000 turistas vieram a Salvador nesse carnaval, e em algumas reportagens no aeroporto vários prometendo voltar no próximo ano e alguns chorando porque o desse ano acabou.

      Não sei dizer se a cidade ganha ou perde com o carnaval, mas muitos ganham mais nessa época, como os motoristas de taxi, ambulantes, hotéis e restaurantes. Muitos ganham dias livres, de sexta-feira de uma semana à quarta-feira da semana seguinte, outros como eu, recebem trabalho extra, e para a cidade fica a gripe do ano que recebe o nome da música escolhida como a mais popular do carnaval, nesse caso, o bi-campeão Márcio Víctor, que durante o carnaval foi operado do apêndice e 14 horas depois estava sobre o trio elétrico. Ele emplacou a música (e a gripe) do ano passado como Lepo-Lepo e a desse como Xenhenhém. É provável que em pouco tempo ninguém vá se lembrar dessas músicas, mas por hora, cumpriram o seu papel. 2016 promete!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Na minha vez, muda!

      No trânsito, se estou em uma faixa ela segue mais devagar do que a vizinha, se troco, a nova pára e a antiga anda. Como diz um colega, na minha vez, muda. O mesmo ocorre na fila do banco e no caixa do supermercado, aliás, aqui em Salvador fila do caixa de supermercado é um martírio, mas na minha vez, muda.

      Quem, como eu, cresceu no tempo da ditadura militar passou do período do tudo é proibido aos dias de hoje onde tudo é permitido, na minha vez, muda!

      Naquele tempo aprendíamos na escola a ter respeito para com os mais velhos. Me lembro claramente da professora da segunda série dizendo que deveríamos respeitar os pais, que não devíamos perturba-los quando eles chegavam em casa, pois estavam exaustos trabalhando para nos dar o melhor. Hoje é diferente, ai do pai que ao chegar em casa não dê atenção ao filho. Será rotulado como ausente. Na minha vez, muda. Havia o almoço de domingo, e a comida era especial: macarrão com frango. A coxa, evidentemente, era para o pai. Hoje essas não são os pratos especiais, mas a coxa também não é do pai, na minha vez, muda.

 Meu avô, meu pai, meu filho e eu em 1988

      Na semana passada meu pai teria completado 82 anos e eu conversava com o meu filho e dizia da saudade que tenho dele. Meu pai nunca me levou à escola, nunca fez a minha matrícula e nunca sabia em que série eu estava, mas me dava um conselho: se você não quiser ficar como eu, estude. Meu pai nunca leu uma estória para mim, nunca me levou a festas e nem a viagens, no máximo fomos nadar no rio Tietê onde também pescamos juntos umas poucas vezes. Me lembro, ainda na fase dos 3 anos, que ele almoçava em casa e se deitava após o almoço e eu me deitava com ele, depois, quando ele saia para trabalhar me levava de bicicleta até a esquina de onde eu voltava correndo. Me lembro também das 3 vezes em que apanhei dele e da correia de couro que ficava atrás da porta da cozinha que era usada para castigar mim e aos meus irmãos. Essas são situações hoje inadmissíveis e ainda que na minha vez tenha mudado, não posso esquecer da bondade que meu pai tinha, não se tratava de fazer caridade ou oferecer o que sobrava, mas dividir o pouco que se tinha. Também não posso me esquecer do comprometimento com o trabalho. Para quem como ele ficou muito tempo desempregado depois de ter participado de uma greve no período da ditadura, fazia questão de me mostrar a importância do trabalho e da retidão de caráter, talvez meu maior patrimônio, e espero que isso não tenha mudado.