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sábado, 24 de junho de 2017

O Metrô De Salvador

      Não como estudioso, mas como palpiteiro contumaz, costumo dizer que não existe crime perfeito, existe crime mal investigado. O que mais se aproxima de um crime perfeito é aquele praticado por uma só pessoa, pois, se mais de uma o conhece, a possibilidade de não haver segredo aumenta em muito. Certa vez disse isso a um amigo e ele foi pronto em responder: crime perfeito é o metrô de Salvador. Só foi feita a metade, demorou o dobro do tempo, custou o triplo e ninguém foi preso. Ele se referia à linha 1 que vai da estação da Lapa a Pirajá.

      Há umas duas semanas fiz esse trajeto para conhecer e foi uma boa experiência. Ainda é tudo novo, cuidado, limpo, organizado, sinalizado, com segurança e funcionou corretamente. Não fiz isso em horário de pico, mas como não fiquei procurando pelo em ovo não tenho o que criticar. As estações não possuem a sofisticação de muitas das suntuosas existentes em Moscou, mas também não são tão simples como várias plataformas abertas de Amsterdam, mas são bastante funcionais.

      Está em implantação a linha dois que já tem umas 8 estações funcionando e outras 4 devem ser inauguradas até o final do ano chegando a Mussurunga, uma estação antes da futura estação do aeroporto. Essa linha está avançando rapidamente, mas tecnologicamente falando, foi facilitada porque, além de não ser subterrânea, a maior parte está sendo construída no canteiro central da avenida Paralela, logo, sem muita desapropriação escavação ou remanejamento.

      Apesar de ter destruído um belo jardim que era o canteiro central da avenida, a cidade está ganhando um bom transporte de massa, aliás, que também é muito necessário. Como não se faz omelete sem quebrar os ovos, algum inconveniente é esperado e aceito durante o período da construção, como desvios, engarrafamentos e sujeira, muita sujeira. Porém tenho críticas a algumas das atitudes tomadas pelos construtores. Há um desrespeito intenso na questão do trânsito no entorno da obra que passa da simples, mas irritante, lentidão a até mesmo colocar em risco  as vidas dos usuários da via.

      São esperados os remanejamentos das pistas de rolamento e até mesmo o bloqueio de algumas, porém falta sinalização adequada. Em muito lugares, uma simples marcação do piso ajudaria na segurança e disciplinaria o trânsito tonando-o mais fluido, esse é o caso da LIP, região conhecida como Ligação Iguatemi Paralela. Também, de uma hora para outra aparecem blocos de concreto limitando a passagem, e esses são colocados sem critério e sem sinalização. No filme abaixo, que foi gravado no sentido centro antes do trevo de São Cristovão, há um exemplo. Houve a redução de uma faixa de rolamento, a marcação no solo não foi alterada e não há nenhuma sinalização anterior que indique a modificação. Se o motorista seguir a faixa visível na direita irá colidir com os blocos que estão à frente, se fizer a curva para a direita irá jogar o carro sobre o que está ao seu lado. Fiz a gravação em um horário de pouco movimento para não comprometer a segurança, mas é suficiente para para mostrar. A tal pista que desaparece volta a aparecer no final do vídeo, no lado esquerdo.



      Há ainda os holofotes que eles colocam para iluminar a obra, muitas vezes, tais equipamentos potentes, estão voltados para o sentido oposto de direção da via ofuscando a visão dos motoristas.

      Às vezes soluções simples e pouco dispendiosas como a colocação correta dos holofotes e a pintura de faixas no solo podem reduzir o incômodo e evitar acidentes. Creio que em uma situação de acidentes com vítimas fatais poder-se-ia até mesmo responsabilizar os autores por homicídio com dolo eventual, onde não havia a intenção de matar mas foi o causador por imprudência e por riscos conhecidos, ou seja, é a negligência de quem executa e a omissão de quem deveria fiscalizar.

      Não sou contra o metrô, de seus benefícios e até aceito bem os transtornos, mas não concordo com essa irresponsabilidade.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Gripe do Ano

      Em alguns momentos o carnaval fez parte da minha vida. Na infância, adolescência e mesmo adulto, frequentei alguns clubes em épocas de carnaval e agora me vejo em Salvador, reconhecidamente um dos centros brasileiros do carnaval, porém agora não mais como participante, mas como trabalhador. Não estive nos circuitos e nem nos camarotes no período das festas, mas estive antes, na preparação, o resto assisti pela TV ou senti no trânsito.

      Não tenho conhecimento de outra cidade brasileira que conviva tão bem com o carnaval e não o digo pela participação popular, mas pela mudança na vida das pessoas, principalmente na dos moradores. Há 3 circuitos oficiais, o do Pelourinho, onde tem festa o ano todo e não recebe muita intervenção física, mas o fluxo de pessoas se expande enormemente nessa época. O do Campo Grande que é uma praça em frente a qual se localiza o famoso Teatro Castro Alves (TCA) e cujas laterais são tomadas pelas estruturas metálicas. Em uma das laterais fica uma arquibancada com 30.000 lugares e na outra alguns camarotes, pequenos para os padrões locais, e a estrutura para a cobertura das rádios e TVs. Os trios e os blocos passam por essas duas ruas e seguem em direção à Praça Castro Alves, e, por fim, o circuito Barra - Ondina de aproximadamente 3km que os trios levam cerca de 4 horas para percorrer. Nesse circuito ficam localizados os principais camarotes, alguns muito grandes, cuja lotação é de aproximadamente 2.000 pagantes e 300 funcionários.

Camarotes e estruturas de rádios e TVs no Campo Grande

      Tais estruturas começam a ser montadas em janeiro e terminam de ser desmontadas 15 dias após a quarta-feira de cinzas. São centenas de operários, máquinas, caminhões e guindastes trabalhando, fechando ruas, impedindo acessos e bloqueando calçadas. Nos dias da folia apenas moradores conseguem acesso, desde que apresentem comprovante de residência, mesmo assim se não houver bloco passando, pois nesse horário nem ambulância passa. Mãos de direção são mudadas e as ruas são invadidas por milhares de ambulantes, que montam seus minúsculos quiosques e por lá permanecem por uma semana, se alimentando e dormindo nas próprias ruas, calçadas, marquises e onde mais for possível. Não dá para falar disso sem esquecer dos mais de 2.300 sanitários químicos instalados. De repente pode ter uns 10 colocados em frente ao seu prédio, e como eles são poucos frente a quantidade de cerveja que é vendida, e todos conhecem as propriedades diuréticas do álcool, imaginem o que ocorre e o cheiro que fica.

Unidades móveis de produção e transmissão de TVs estacionadas na lateral do Campo Grande

      Os músicos e as bandas tocam de tudo. Todas as misturas são permitidas, de sertanejo, passando por funk a axe misturados no mesmo trio elétrico, e sem esquecer a MPB e clássicos do roque nacional e internacional. As apresentações também são ecléticas, desde algumas até talentosas a aquelas que fazem um esforço danado para aparecer, vestidos ou nem tanto. Algumas apresentações não não muito honestas, pois o público quer música para festejar, cantar e dançar e o músico balbucia 2 ou 3 palavras e fica “na mãozinha para cima” ou “tira o pé do chão”, pouco para quem pagou caro pelo Abadá.

      Nesse ano o Axé Music completou 30 anos e o carnaval começou um movimento de volta ao popular, aumentando o número dos trios sem cordas e as festas que ocorreram também em 6 bairros com mais de 200 shows. Há também os blocos com pequenas bandas que desfilam sem trios fora dos circuitos oficiais. Já se estuda, para o próximo ano, aumentar o carnaval em um dia e extender as festividades para 10 bairros. Segundo divulgado pelos veículos de comunicação, mais de 700.000 turistas vieram a Salvador nesse carnaval, e em algumas reportagens no aeroporto vários prometendo voltar no próximo ano e alguns chorando porque o desse ano acabou.

      Não sei dizer se a cidade ganha ou perde com o carnaval, mas muitos ganham mais nessa época, como os motoristas de taxi, ambulantes, hotéis e restaurantes. Muitos ganham dias livres, de sexta-feira de uma semana à quarta-feira da semana seguinte, outros como eu, recebem trabalho extra, e para a cidade fica a gripe do ano que recebe o nome da música escolhida como a mais popular do carnaval, nesse caso, o bi-campeão Márcio Víctor, que durante o carnaval foi operado do apêndice e 14 horas depois estava sobre o trio elétrico. Ele emplacou a música (e a gripe) do ano passado como Lepo-Lepo e a desse como Xenhenhém. É provável que em pouco tempo ninguém vá se lembrar dessas músicas, mas por hora, cumpriram o seu papel. 2016 promete!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Entre carros e o ENEM

      Tenho uma boa relação com carros, mas não sou aficionado, os vejo como ferramentas e me sinto bem quando estou dirigindo. Hoje dirijo diariamente mais que nos últimos anos, e andava considerando ter um carro pequeno para poluir menos, pela facilidade para estacionar e, por fim, para economizar mesmo. No entanto, após o último acidente, passei a dar mais valor à segurança, por isso tenho um que é um pouco mais pesado. Não vou generalizar para não incorrer em erro, mas a maioria dos carros que passa por mim em alta velocidade, costurando no trânsito e executando manobras ilegais é de carro pequeno ou velho, até mesmo porque esses são a maioria. Também, na maioria, dirigido por jovens. Creio que vários fatores estão associados, a pouca maturidade, o senso de poder, o relativo baixo custo, e, claro, a educação. Mesmo não sabendo identificar as motocicletas, percebo que a maioria dos condutores também é formada por jovens, e isso justifica as estatísticas de serem, os jovens, justamente os que mais sofrem mortes no trânsito brasileiro.
      Os costumes variam com o tempo, às vezes evoluem, às vezes não, mas sempre causam impacto em nossas vidas. A seta dos carros não serve mais para indicar a direção que o condutor pretende ir, mas sim para te dizer: saia da frente que eu vou passar. Da mesma forma, a buzina não é um alerta de perigo, mas serve para te dizer, seu burro! Não sabe dirigir? Essa involução decorre da perda de valores, da falta de educação.
      A educação é responsabilidade da sociedade, da escola e, principalmente, da família. A família deveria educar e a escola ensinar, e hoje ambas estão em baixa. Há duas semanas o resultado do ENEM mostrou que cerca de 529 mil estudantes, 8,5% do total de inscritos obtiveram nota zero na redação.
      Na comparação com estudantes de outros países os brasileiros sempre disputam os últimos lugares, também pudera, a escola de ensino fundamental passou a ser um depósito de crianças e muitas delas têm estrutura precária que culmina com a baixa qualidade e que só faz se propagar para as séries superiores. No ensino médio há disciplina demais e exige-se conhecimento amplo, mas falta o básico, escrever, ler, entender e fazer contas simples.
      Com uma geração mal educada e mal formada fica fácil entender o porquê do aumento da criminalidade, que associada aos acidentes de trânsito geram mais de cem mil mortes anualmente. Assim fica difícil vislumbrar um bom futuro para o nosso país.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Quase Fui Atropelado.


      Não bastasse a baixa qualidade do ensino no Brasil, temos que conviver também com a falta de educação. A nossa permissiva constituição determina que o estado provenha educação básica e que cuide das crianças. Isso seria ótimo...se funcionasse. Vejo todo início de ano pais reclamando da falta de vaga para seus filhos nas creches municipais. São enfáticos: é nosso direito... pagamos nossos impostos... Não posso dizer que eles estão errados, pois a lei os ampara, mas a escola que já tinha baixa qualidade piorou. Virou depósito de criança.

      São muitas as famílias que transferem para a escola a responsabilidade de educar os seus filhos e não apenas de transmitir-lhes conhecimento. É evidente que sem a estrutura adequada em termos físicos e de recursos humanos a escola não faz uma coisa nem outra e a deseducação só faz aumentar.

      Quando falta educação a qualidade da cultura também é sofrível. Pertencemos ao país da malandragem, do jeitinho, da malemolência, do deixar tudo para a última hora e de levar vantagem em tudo. Não querendo entrar na seara da incompetência, da corrupção e da política, vou me ater ao trânsito. Somos também do país do desrespeito total às regras de trânsito. Ultrapassamos pela direita, não respeitamos a sinalização, velocidade máxima então só serve para dar dinheiro a quem produz as placas e que nem mesmo a indústria da multa consegue dar um jeito. De acordo com a seguradora que administra o DPVAT morrem 160 pessoas por dia no trânsito no Brasil, a maioria é de jovens com idade entre 21 e 30 anos. Das indenizações pagas em 2010 31% foram por causa de acidentes de carros e 61% de acidentes com motos.

      Há pouco mais de um mês quase fui atropelado na esquina de casa. Por eu ter somente uma vaga de garagem no prédio onde moro a deixo para a minha filha e alugo outra garagem na esquina. Tenho que atravessar duas ruas e fiz isso sobre as duas faixas para pedestres. Na primeira tudo bem, mas na segunda, quando eu já estava no meio da rua, um motociclista não respeitou a placa de parada obrigatória e com a visão encoberta por uma van não me viu e desviou muito perto. Aquela caixa horrível que esses entregadores carregam nas costas, e na qual provavelmente deveria haver pizzas, bateu em minha mochila.

      Devido à alta velocidade ele levou uns 40m até reduzir, voltou na contra mão e por sobre a calçada e queria brigar comigo. Ele foi categórico ao afirmar que eu estava ficando louco, pois a placa de parada obrigatória não é para ser respeitada e se não vem ninguém na outra rua ele não precisa nem reduzir a velocidade, e que a única função da faixa é gastar tinta! Me vi numa situação ridícula de ter que discutir no meio da rua e poderia ter sido pior, ter que enfrentá-lo fisicamente, ainda que ele estivesse com luvas, blusa de couro, capacete, e sendo 10cm mais alto que eu e provavelmente uns 15kg mais pesado, com a minha condição atlética acredito até que eu não sairia tão mal, mas não preciso disso. Não devo e não quero viver nesse nível.

      Eu não vou mudar o mundo e sou do tipo consumidor idiota fiel aos locais e marcas, mas só até que algo me desagrade e me obrigue a trocar, mas há muito tempo tomei uma decisão: eu não peço a entrega de comida pronta. Se for preciso saio de casa e vou buscar, mas não alimento esse tipo de emprego e cultura, sim, pois essa maneira de utilizar as motos vêm dos “motoboys” de São Paulo que te fecham, chutam os espelhos, se chamam de irmãos e se transformam em uma turba contra qualquer motorista que supostamente tenha desrespeitado a um deles.

      Acredito que esses desgraçados não tenham tido a oportunidade de ter uma melhor instrução, qualificação e conseguido melhores empregos, mas se depender de mim, não irão ganhar a vida fazendo entregas e disseminando essa falta de valores.

domingo, 20 de maio de 2012

É Melhor Continuar Sendo Pobre.


      Nasci para ser pobre e por isso sou empregado. Apesar de possuir algumas habilidades que poderiam me proporcionar alguns pontos diferenciais em um negócio próprio não sei me portar como comerciante. Por outro lado isso me permite escolher as companhias e as amizades, o que não seria possível se eu dependesse do comércio para viver.

      Ontem saí de casa para ir ao banco, ao supermercado e falar com um amigo. Como todos os locais eram perto de casa fui a pé. Nós tínhamos um ponto em comum que era retirar o kit para participar de uma corrida hoje e ele já havia combinado com uma terceira pessoa para irem até o local e me convidou. Sabe aquela sensação de não querer aceitar, mas pela circunstância se vê envolvido? Pois é, foi o que fiz. Eu já havia estado com esse rapaz, de cerca de 35 anos, umas duas ou três vezes, mas nunca havíamos conversado.

      Ao entrar em seu carro, um ágil fiatizinho 1400 ou 1600, o meu amigo disse, vocês dois que são engenheiros vão na frente pois podem conversar, e ele prontamente retrucou, hoje é sábado e eu não converso sobre trabalho. Apenas para participar eu disse que era dia de descanso. Não havíamos percorrido nem 400m e ele em uma manobra ousada, mas não tão arriscada, ultrapassou dois carros, e o meu amigo comentou: você dirige agressivamente e ele respondeu: agressivamente não, eu sou esperto. Veja: eles estão abaixo da velocidade permitida e em fila, um passou pelo semáforo e o outro ficou. E continuou a dar lições de trânsito justamente para mim, que me considero um bom e experiente motorista. Eu comentei que ele deveria respeitar os ciclistas, e o esperto respondeu: se eles me respeitarem tudo bem, do contrário eu também não os respeitarei. Se um deles atravessar o sinal vermelho eu o jogo do outro lado da rua. Comentei que existe uma outra lei que diz que não é permitido matar e a regra de trânsito diz que o mais forte deve proteger o mais fraco.

      Essa conversa não iria terminar. Ao sairmos pela avenida São Carlos e entrarmos na rodovia Washington Luiz na direção da capital há um pequeno aclive no qual transitava um gol 1000 que sendo conduzido por um motorista, no mínimo, desatento. O esperto logo tomou a mão da esquerda o que daria a ele a prioridade na ultrapassagem, mas o motorista do gol, em uma manobra imprevidente, ainda que sem risco, saiu para a esquerda. Era uma situação perfeitamente administrável, pois havia distância segura e a diferença de velocidade não era tão grande, mas o esperto deixou para frear na última hora, enfiou a mão na buzina e deu repetidos sinais de luz. Não contente, quando o outro retornou para a faixa da direita, o esperto passou gesticulando, buzinando, xingando e eu morrendo de vergonha.

      Veio então uma enxurrada de justificativas do tipo, se não sabe dirigir, que não saia de casa. Se não está preparado, que não pegue a pista. Se fosse um caminhão teria passado por cima. Se ninguém falou nada para ele alguém tem que ensinar e agora ele vai aprender. Logo à frente ele teve que reduzir a velocidade e justificou, aqui eu diminuo porque tem o posto de guarda e tem radar. Não me contive: você está errado, você deve diminuir a velocidade não por causa do guarda ou do radar, mas porque é a velocidade que a lei determina. Ele desconversou e percebi que era o momento de eu me calar. Apenas o respeito ao meu amigo que me convidou me fez não pedir para descer e voltar a pé para casa, uma situação que a minha condição física perfeitamente me permite.

      Chegamos ao local, pegamos os kits, voltamos e não comentei mais nada. Apenas me despedi e agradeci, mas essa é uma companhia que não quero e uma amizade esperta que não desejo. É melhor continuar sendo pobre.

domingo, 29 de abril de 2012

( I ) Responsabilidades.


      Há cerca de 10 anos vendi o meu carro e fiquei quase dois sem comprar outro e isso me fez ver com outros olhos os espaços públicos. Passei a me preocupar com a dificuldade de locomoção, a segurança, a sujeira e a aparência. Quando passei a pedalar a minha insatisfação só fez piorar. O desrespeito e o descaso são muito grandes e quando falta muito, a beleza é o que menos importa. Entendo que criticar é fácil e que ser gestor com poucos recursos é uma tarefa hercúlea, porém os gestores públicos o são por opção própria e por delegação popular, logo eles devem responder por isso.

      Enquanto cidadão a nossa responsabilidade não termina dentro dos nossos muros, mas somos também responsáveis pelos próprios muros. A foto abaixo mostra o muro de um clube localizado no centro de São Carlos, no lado de dentro há um campo de futebol society onde centenas de pessoas, inclusive crianças jogam todos os dias. Será que nenhum diretor vê que essa fissura e inclinação podem fazer vítimas? Onde estão os fiscais do município que não prevêem o problema?


      Também no centro há uma chácara com aproximadamente 10.000 metros quadrados e em vários lugares o muro está inclinado e com atestado de perigo, pois foram feitos remendos para mantê-lo em pé. A dúvida aqui não é se parte do muro irá ou não cair, mas apenas quando isso ocorrerá.


      Como o que é ruim pode piorar, no lado de dentro desse muro há um barranco e na parte de baixo funciona uma creche. São muitas as crianças circulando por esse espaço diariamente. Só resta torcer para que não haja vítimas quando o muro vier abaixo.


      Não são apenas os riscos de acidentes. Nesse ano a prefeitura está fazendo a implantação de rampas de acesso em muitas das esquinas centrais. Nenhuma administração municipal anterior fez tantas, porém nem sempre prevalece o bom senso. Quando na esquina há um bueiro, a rampa é deslocada, ou seja, o idoso, cego ou cadeirante que desvie, quando o correto seria mudar o bueiro. Mas isso custa mais caro e não fazer a rampa implica em um número menor na estatística, o que é ruim, principalmente em ano de eleição. Aplica-se aqui o mesmo princípio das passarelas para pedestres sobre as rodovias. Sempre vejo reportagens de atropelamentos e campanhas para que o pedestre as usem, mas nem sempre elas estão onde há o maior fluxo de pessoas, além do que, as rampas de acesso são longas dos dois lados, o que obriga o transeunte a uma caminhada adicional. O melhor seria fazer a passarela no nível do solo e desviar os carros, mas isso também é mais caro.


      O motorista também tem responsabilidade. No outro lado da rua estacionaram um carro na frente da guia rebaixada. Precisa fazer isso?


       E há muito mais. Essa proteção na obra em andamento impede a passagem das pessoas. Ela existe para atender a dois requisitos: a obrigação legal e a proteção da obra contra vândalos e ladrões, mas não há nenhuma preocupação com a população. Já vi em outros países a proteção adequada. O piso é regularizado, o lado da construção é todo fechado, a passagem é coberta em toda a sua extensão e no lado da rua há também a proteção física, às vezes com blocos de concretos. Mas fazer o certo tem custo.


       A administração municipal tem que regulamentar, fiscalizar e fazer cumprir a lei. Se não tem estrutura suficiente para vistoriar todo o município, que sejam criados mecanismos para que a população faça a denúncia permitindo que a fiscalização ocorra nos locais citados, enfim, não é necessário ser muito criativo para ser mais eficiente.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tempo Tempo Tempo Tempo.


      O tempo sempre existiu ou é uma invenção dos homens? Havia contagem do tempo antes do Big Bang? O universo está em expansão e o tempo possui um sentido estabelecido, do passado para o futuro, mas e se o universo, a partir de um ponto, começar a encolher até o Big Crunch, o sentido do tempo mudará? Se mudar, iremos reviver ao contrário? Nasceremos velhos e morreremos criança?
Parece-me que para o universo tanto faz o sentido de tempo, tê-lo ou não, não deve fazer diferença, pois somos insignificantes diante da grandeza do cosmos, mas como uma invenção para ordenar as nossas vidas ele é extremamente importante. Imagine viver em um mundo onde não existe a contagem de tempo. Na literatura é possível, mas na vida real seria um transtorno, e tenho certeza que se ele não existisse alguém o inventaria.

      Como já existe ele nos é um bem muito valioso, principalmente porque não sabemos a duração das nossas vidas, o problema ocorre quando alguém decide que o tempo dele é mais valioso do que o nosso. Ou não?

      Ontem eu tinha um horário marcado com um dentista e cheguei seis minutos adiantado e fui atendido 46 minutos depois do horário marcado, e com um detalhe, eu era o primeiro paciente. Tudo bem que durante a espera eu fiquei lendo e não posso dizer que o tempo foi totalmente desperdiçado, mas naquele horário eu poderia fazer outras atividades que eu considerasse mais propícias, já que estabeleço meus horários para a leitura. Nesse caso não escolhi, essa atividade me foi imposta.

      Alguns profissionais da saúde são mestres na arte de valorizar o seu tempo em detrimento do tempo dos pacientes, nesse caso, literal e necessariamente pacientes. Seguem o raciocínio que eles não podem perder tempo, mas quem está necessitando de seus préstimos pode. Para eles tempo é dinheiro, para nós, é só um atestado. Mas eu não quero atestado, não preciso de atestado, quero o meu tempo para fazer o que eu quiser e a única coisa que não quero é ser refém da falta de respeito.

      O mesmo ocorre nas filas dos bancos, dos cartórios, das repartições públicas e também no trânsito. E pior ainda para aqueles que dependem da fila do INSS e do SUS. Eu poderia citar também a fila dos transplantes, mas considerando que a fila que existe é justa, o problema passa a ser a capacidade de coleta, que é uma questão de organização, administração e recursos, e depois, da boa vontade dos doadores.

      Quando os problemas são estruturais podemos nos indignar, exigir e protestar, mas e quando a relação é pessoal entre o profissional e o cliente, o que devemos fazer? Que atire a primeira pedra quem nunca se enfureceu com coisas desse tipo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Acidente.

      Sabe aquela zombeteira resposta à pergunta: o que fiz de errado? Nada, só nasceu! Pois é hoje não fiz nada de errado mas claramente colaborei, apenas por estar na rua, para um acidente que por muito pouco não foi sério e ao qual assisti de camarote, ou melhor, do selim da bicicleta.
      Às 6:35 da manhã saí de casa com a mountain bike para o percurso básico, ir até Ibaté por dentro dos canaviais e voltar a tempo de tomar café e chegar cedo ao trabalho. São cerca de 30 km que percorro em aproximadamente 1:30h, pois se trata de um trajeto relativamente fácil. Normalmente rodo uma quadra e meia na contra-mão da rua de casa e ao chegar na rua Riachuelo acelero um pouco, mas logo tenho que reduzir, pois no cruzamento com a Marginal tenho que virar à direita num ângulo superior a 90 graus. Apesar de a descida ser em uma rua preferencial, fico atento aos 2 cruzamentos, pois não custa muito para um desavisado cortar a frente. A Riachuelo, em 3 quadras, tem um desnível de uns 40m onde se atinge facilmente 60km/h.

      Hoje ao chegar à Riachuelo vi à minha direita um pedreiro, que poderia ser um ferreiro, ou carpinteiro, enfim um trabalhador de obra, descendo com uma bicicleta em alta velocidade, sem segurar, e com as mãos cruzadas sobre o peito. Lógico que a proteção da cabeça era um boné de propaganda. Sem nenhum risco, pois ele estava a uns 70m acima, cortei-lhe a frente posicionando-me à direita e acelerei. Imagino que ele tenha pensado: esse playboy, ou coisa que o valha, pois eu estava trajado como ciclista esportivo e pedalando em uma bicicleta de boa qualidade, não vai ficar na minha frente. Tenho que passá-lo! Duas quadras abaixo ele me alcançou já com as duas mãos apoiadas no guidão e a uns 65km/h e acelerando. Nesse momento eu já estava reduzindo para fazer a curva e pensei: o cara é louco, ele não vai parar. E ele não parou.

      Simplesmente desrespeitou a sinalização de parada obrigatória pois não vinha ninguém à esquerda e avançou. Cruzou a primeira rua e após cruzar o canteiro foi atingido por uma moto, cujo condutor também não havia obedecido à sinalização de obrigatória parada. Apareceu uma labareda de fogo no momento do impacto e várias outras menores produzidas pelas batidas da moto sobre o asfalto. Cada um para o seu lado foi arremessado ao chão e assisti à queda dos dois. Eles levantaram-se cambaleando e atordoados. Na moto quebraram-se as coisas de praxe: espelho, tanque, mata-cachoro e a bicicleta, que era uma Treck, ficou um treco: câmbio destruído e a roda traseira ficou um “oito” entre outros danos.

      Fui atendê-los e os dois mostravam-se “ralados” mas sem fraturas. Nenhum queria o auxílio da polícia e nem do resgate e iniciaram um diálogo. O condutor da moto, um rapaz de uns 25 anos que pelo traje deve trabalhar como vigilante, tentava ser educado, cordial e responsável, admitindo arcar com os prejuízos, mas em primeiro lugar preocupado com a saúde do atingido, e esse, enquanto procurava por seus óculos, analisava a bicicleta e só resmungava uma coisa: filho da p...

      Muitas pessoas que passaram de carro, moto ou bicicleta se propuseram a ajudar, mas os envolvidos recusavam, e eu por ter sido o primeiro tinha também tomado essa iniciativa, e apenas fui útil quando cedi um pedaço de papel para que eles trocassem os endereços para contato e logo fui embora, pois a polícia já tinha sido acionada.

      Por uma questão de milésimos de segundo o acidente não foi fatal. A moto que estava também, sem nenhuma dúvida, acima de 70km/h bateu imediatamente atrás do eixo traseiro da bicicleta. Fosse cerca de 60cm mais à frente teria havido o choque contra o corpo do ciclista e a estória teria sido muito diferente. Não me dando importância mais do que costumo me dar, se eu não tivesse aparecido, provavelmente o tal pedreiro não teria tentado me passar e teria chegado ao cruzamento uns 10 segundos depois da moto e nada teria ocorrido. Pois é, mas eu existo, e apareci ali naquele horário.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Plural Da Estupidez.

      Entendo que dirigir é a arte de ocupar espaços de maneira segura. Para que se tenha fluência e segurança no trânsito é necessário que se tenha regras e que haja educação para respeitá-las, mas hoje se aplica às leis de trânsito o mesmo princípio das transações econômicas: se há risco de perder dinheiro, aumenta-se o custo desse para aqueles que pagam, princípio que é também utilizado pelo governo que cobra muito imposto de quem paga, pois quem não paga, bem, simplesmente não paga. E há regras no trânsito que se baseiam nessa mesma prudência, se há muitos infratores, cria-se mais dificuldades, e assim vemos crescer os abusos e a indústria da multa . Apesar de ser contra essa atitude acabo me perguntado, há uma maneira melhor que não seja a educação?

      Principalmente os homens jovens têm comportamento agressivo no trânsito e eu já fui assim. Parece que ao tomar o volante de um veículo esse se torna extensão do nosso corpo e potencializa a nossa força. Quanto melhor o carro mais somos e mais podemos. Ainda acho que quando jovem eu dirigia melhor do que o faço hoje, mas com certeza eu era também muito mais imprudente. Já bati carros em todos os seus lados, mas nunca me machuquei seriamente e nem machuquei ninguém, no entanto sou obrigado a admitir, mesmo estando com a razão em todos os acidentes em que me envolvi tenho uma certeza: a maioria deles poderia ter sido evitada, e também me pergunto: é possível ter razão em algum acidente?

      Quando se tem porte físico avantajado ou se está em maioria, os super-homens do trânsito também são corajosos e querem resolver as diferenças na intimidação e agressão, já vi isso ocorrer diversas vezes, hoje inclusive. A sala onde trabalho tem janelas para a Avenida Getúlio Vargas que é uma via de trânsito razoável e velocidade permitida de 60km/h. Quando olhei pela janela um Opala com dois ocupantes bateu em um Meriva, segundo um colega de trabalho, de forma intencional. O Meriva ficou atravessado na pista e seu condutor, de elevada estatura, saiu do carro para brigar com o outro motorista que aparentava ser uma pessoa de menor porte físico. O passageiro do Opala chegou a sair do carro mas voltou rapidamente ao seu interior. Diante da iminente agressão, o condutor do Opala fez menção de evadir-se, e o motorista do Meriva agarrou-o pelo pescoço. O motorista do Opala deu marcha a ré e depois tocou em frente por cima da calçada arrastando o outro condutor e após uns 60m freou bruscamente para tentar derrubá-lo. Já fora do meu campo de visão, ouvi os pneus cantarem em uma curva fechada para a direita e logo após vi o Opala passar pela esquina debaixo, e o motorista do Meriva ficou estendido no chão a cerca de 200m do local do primeiro acidente, eu o via enquanto a aglomeração começava.

      A avenida ficou um alvoroço, uma colega ligou para o serviço de emergência e eu liguei para a polícia militar e fiquei ouvindo a gravação: você ligou para a polícia militar, aguarde um momento que você será atendido. Se você precisa de socorro médico ligue para 192, se você precisa de salvamento ou combate a incêndio ligue 193.Você ligou para a polícia militar...após uns 5 minutos vi passar 2 policiais de motocicleta e desliguei ainda sem ter sido atendido. Contam que o primeiro motorista além de ter sido arrastado também teria sido agredido com um ferro. Segundo um site sensacionalista da cidade a vítima não teve lesões graves, mas poderia ter sido diferente, poderia ter levado um tiro, pois não dá para saber quem é o outro. Definitivamente esse é o plural da estupidez, por causa de imbecilidades que resultaram em danos materiais de pequena monta uma família poderia ter ficado desassistida, ou as duas, com um morto e outro preso, pois anotaram o número da placa do Opala. Parabéns aos dois energúmenos.