Tenho muitas dúvidas e poucas certezas e por isso tenho alguma facilidade para elaborar diversas visões sobre o mesmo fato, evento ou situação, claro que são apenas opiniões, pois não tenho a competência de cientistas sociais. Porém faço uma afirmação: sou a favor da tecnologia, inclusive, no meu primeiro emprego regular, em que comecei emitindo notas fiscais em máquinas de datilografia, tive o meu primeiro contato com computador. Era um aparelho enorme, com vários módulos, leitor óptico de cartões e leitor magnético de fitas impressas em cartões de papel, além de muita mecânica para manipulação de fichas, impressão em formulários e perfuração dos cartões. Era uma máquina alugada da Borroughs que ocupava uma sala inteira super gelada, e cuja capacidade era uma pequena fração do que faz hoje qualquer telefone celular. O efeito colateral foi que dos 12 funcionários do departamento, 10 foram demitidos após essa implantação, ficaram apenas o chefe e eu.
Aquela tecnologia já começava a modificar os fluxos de trabalho, mas não era acessível à população e nem produzia acesso às informações. Eu, que naquela época eu tinha 17 anos, ganhava 10% mais que o salário mínimo, cursava o último ano do curso técnico em eletrônica e vivia em cidade pequena, tinha contato limitado com o mundo. Em minha casa não havia receptor de televisão, logo, ouvíamos rádio, para ler revistas e jornais eu visitava bancas de conhecidos ou recorria a locais públicos como as bibliotecas, mas eu lia muito. A partir dos 12 anos, graças ao grupo de conhecidos do meu irmão, passei a ter contato com livros e pessoas esclarecidas e engajadas na luta contra a ditadura militar, e tive acesso à literatura nacional, internacional, filosofia e política. Meu comportamento era eclético, então conheci de Machado de Assis, a Jorge Amado, passando por José Mauro de Vasconcelos. Li Tolstoi, Dostoievski, Fernando Pessoa, alguma coisa de Shakespeare, Waldo Emerson, Maquiavel, Kant, Hegel, Sócrates, Platão, Marx e muitos outros. Como preguiçoso e invejoso que sou, eu não estudava, mas procurava entender as ideias e perguntava muito. Isso refletiu no meu gosto musical e em minha comunicação, que, de tímido, passei a ser tagarela, pois eloquente é muito para mim, e me arvorei a escrever, fazendo parte da editoria de um jornalzinho dedicado à juventude.
Apesar de tantas atividades, apenas hoje vejo como o meu mundo era pequeno. Eu poderia saber de muita coisa do passado, mas não vivia intensamente o presente e muito menos poderia interagir com ele, pois não havia essa maravilha que é a internet, ferramenta que hoje está disponibilizada em praticamente todas as residências da classe média e em centros gratuitos para os de menor poder aquisitivo. Nem preciso listar todas as virtudes da rede, pois vocês que me lêem através dela a conhecem muito bem. Da mesma maneira que se diz que o mal não é o que entra pela boca, mas o que sai dela, não há mal na internet, mas o mal é o que se faz dela. Tenho uma conta de e-mail do Yahoo e por isso acesso esse portal todos os dias, e no lado direito da página inicial há um quadro com os 10 assuntos mais buscados e, se considerarmos que os que mais acessam a rede são pessoas que possuem um certo grau de escolaridade, são em sua maioria jovens, estão em idade ativa e produtiva, me dá enorme tristeza quando vejo os “top ten”
1. Horóscopo
2. Resumo das novelas
3. Robinho
4. Mineiros Chilenos
5. Eliana
6. Miley Cyrus
7. Sabrina Sato
8. Mariah Carey
9. Telelistas
10. Justiça Federal.
Será que não há uma maneira melhor de aproveitar esse extraordinário recurso?
Obs. Não li Os Lusíadas, apenas algumas passagens. É claro que li Vidas Secas e Os sertões dentre outros. O José Mauro de Vasconcelos conheci pessoalmente, levei uma coleção de seus livros que pertencia a um amigo para que ele autografasse quando do lançamento de Chuva Crioula.
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